—Estamos na Trofa, informou um passageiro.
Violet desceu da rêde o saco de camurça-creme, preparando-se para sahir.
—Já?!—perguntou Peregrina, esquecida dos trabalhos da viagem, ou na previsão de peores horas.
E, buscando um bilhete, entregou-me o nome lithographado e esclareceu:
—Vou para Lares, a quatro leguas de Guimarães. Tenho lá sombras e silencio. Venho fugida á esturdia civilizada, ás grandes illuminações com que a cidade estraga a Noite. São as pragas que mais temo—o barulho e a muita luz!
Emfim, se algum dia quizer descansar, visitar a toupeira de Lares...
—Tambem desço, vou para Guimarães. Muito obrigado.
Sahimos rapidamente, e foi já no tramway de Guimarães que paguei a amabilidade de Maria Peregrina, dizendo o nome e explicando que passeava pelo Minho e ia áquella cidade tirar impressões novas das coisas velhas, visto andar muito ao avesso das glorias contemporaneas.
Fez-se silencio sobre a minha informação. Lemos a um tempo os nomes trocados. Verificamos que nos conheciamos. Ella lera um livro meu, com que sympathizara, disse, mercê das suas rebeldias. Por minha parte, esclareci, tinha lido os seus volumes—Nova Sapho e Emparedada. Este era um livro em que ella ampliára, segundo o seu caso, os desgostos dum poeta brasileiro—o Poeta Negro.
Este luctára contra o preconceito de côr, soffrera todo o desprezo geralmente votado á sua casta e fizera deste desprezo um capitulo de Evocações, doloroso.