Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, que eu conhecia pelas revistas e por aquelles livros urdira a Emparedada—a sua obra prima, para editar dores intimas.
As paredes que mostrava ao publico—a um pequeno publico, eram os preconceitos de toda a ordem que lhe entravavam a acção.
Soffrera más vontades, vexames e desabafára em paginas notaveis, mau grado serem decadentes, doentias. Para toda a parte para que voltava o espirito encontrava paredes, escuras e espessas, tatuadas de obscenidades, allusivas a predilecções suas.
A sociedade destinára-lhe uma cella estreita, quando a natureza lhe dera um talento largo e uma sensibilidade enorme, caldeados dum certo fatalismo sensual, que lhe abarcava e impopularizava a obra.
Assentava, plena de orgulho, que essa impopularidade era o contraste do seu genio aventuroso. Mas a sensibilidade abria conflicto com a moral média; e dahi as torturas. Não pretendia que a seguissem e admirassem nos seus delirios; aspirava a que a respeitassem em homenagem ao genio dos seus defeitos, que amava acima da sua obra.
Ora este conflicto, os vôos, as quedas bruscas, tudo o que no temperamento pode haver de grande, e tudo o que a carne pode dar de vil—taes eram os themas dos seus versos geniaes, enfiados naquelle dizer extranho.
No fundo, o livro era a sua historia—uma autobiographia.
Alludi, com enthusiasmo, aos Sonetos, prêsos num lindo aro, a uma titulação leal e exacta:—Procurando alguem...
Expliquei que a unica superioridade que me arrogava sobre o grande numero de confrades era a de acompanhar a propria Belleza que eu não sentia.
Tinha uma concepção de Belleza que prendia ao meu temperamento—era a que naturalmente mais exteriorizava. Mas não me era difficil descer ao intimo duma alma exotica, para viver tempestades alheias.