Conversamos até Guimarães.

Seguiu os dados que incidentemente lhe forneci, e inquiriu, amavel, da minha orientação não esclarecida pelo livro que lêra.

Falamos do debate intellectual do momento. Vieram a proposito velhos cultos.

Cada um de nós tinha concertado um Ceu para os seus santos—um Ceu de Arte, limitado, que mal encheria duas paginas de Folhinha...

Falei da obra revolucionaria de Dostoïewsky, D'Annunzio, da cruzada de Anatole, Maeterlinck, Nietzsche, Wilde e outros; confrontei a aspiração dos recem-cruzados da idéa-nova com o positivismo estreito dos ultimos cincoenta annos.

—Que os novos, affirmei, se propunham esbandalhar os diques, mal cimentados, do bolorento realismo; que a grande obra do homem, era, afinal a alma do homem, utilizada, praticada, alem-fronteiras do vulgar.

Que Zola, por exemplo, apontára todas as grossarias, os aleijões do corpo, mas não comprehendera os delicados aleijões da Alma, excessos do sentido; materializára o talento numa causa rude. A sua alma não déra a expressão duma Arte superior e exacta segundo o espirito.

Assim tambem Eça, entre nós, negativista e bolandeiro, bizarro e dispersivo: no fundo um homem de letras, com technica extrangeirada, cortada á feição dos seus fraques, segundo os modelos de Paris, terra incaracteristica, cosmopolita, transportada a Portugal em amostras da sua prosa de contrastes, duma rhythmica forçada.

Por isso o genio de Camillo, mais o de Fialho haviam batido o seu talento relativo, que liquidou numa reduzida memoria, concebida com macula do peccado original de Teixeira Lopes—o doloroso artista.

Que a pelle da geração passada—a que vestira o realismo—era uma pelle espessa, escamosa e aspera como a do crocodilo.