—O sr. Conde de Nevogilde e o sr. Ruy.

—Que entrem! mandou.

E vendo-os:

—Como vão?

E para Nevogilde:

—Não quiz vir hontem? A noite esteve desagradavel... Tem escripto muito? Que bello o ultimo folhetim para o Jornal do Rio!

Como o Nuno consegue ser original sem diatribe, crear sem demolir. Como se excede, escrevendo!

A puridade, na conversa, tem ainda impertinencias. Escrevendo, só edita o homem superior. Admiro-lhe, sobretudo, o alheamento da vida commum; a elevação do espirito, exotico quasi a frio; a forma por que consegue percorrer notas tão extranhas dentro da mais perfeita serenidade do dizer.

—É que a conversa é para mim uma distracção, um vicio. Pratico-a, como pratico os demais vicios, tal como os nervos, as influencias ma suggerem. A conversa não sou eu; são os outros e eu.

Tenho para mim que a companhia desdobra de nós uma creatura differente da que formamos intimamente. E, quanto mais intelligentes somos ou nos julgamos, peor é—mais ingenuos somos tambem, mais facilmente cahimos na tal rêde de suggestões...