[19] Publicando-se a primeira vez ésta traducção dos versos de Paggi no 2.º num. do vol. II do jornal, a SEMANA, appareceu com uma introducção, da qual julgâmos dever extractar alguns paragraphos:
‘Um nome illustre e portuguez, germanado pela inspiração e pelas tradicções patrias com a glória de Camões, associa-se hoje á nobre desaffronta que um estrangeiro soube, ha seculo e meio, escrever no fim dos Lusiadas em honra das esquecidas cinzas de Camões. O estrangeiro foi Carlos Antonio Paggi, que na sua traducção italiana dos Lusiadas accrescentou, como epilogo, seis formosas strophes em honra do poeta que a patria, ou antes a côrte do seu tempo, votára á humiliação e á indigencia. O nome glorioso na historia contemporanea das nossas lettras, é o de Almeida Garrett, que em bellissimos versos portuguezes trasladou a elegia melancolica com que o italiano Paggi apostrophou a indifferença, ou o desprêzo que foram em vida de Camões a tença mais avultada que os poderosos lhe destinaram no seu livro de mercês.
‘Quem gravou mais estes versos na loisa de Camões, quem lhe refrescou as cinzas com mais esta saudade, foi o poeta, que resume no seu nome, como n’um traço conciso, toda uma regeneração litteraria, o poeta que marca no stadio das lettras um repoiso ameno depois do servilismo, ou da inanição da poesia nacional; o mesmo que celebrou Camões em versos ungidos de sentimento e de saudade íntima; aquelle que interrogou os portuguezes sobre o logar onde jaziam os ossos do maior genio da nossa terra; foi o proprio que em Portugal, onde só a opulencia tem monumentos, e a nullidade estátuas, levantou o mais clamoroso brado a favor daquella pobre ossada, perdida, profanada, pisada talvez sacrilegamente pelos filhos degenerados d’uma patria invilecida; foi aquelle mesmo que rematou tambem um dos seus mais graciosos e sentidos poemas, com ésta apostrophe, temerosa e solemne, ja tantas vezes citada por nacionaes e extrangeiros:
Onde jaz, portuguezes, o moimento
Que do immortal cantor as cinzas guarda?
Homenagem tardia lhe pagastes
No sepulchro siquer? Raça d’ingratos!
XX.
O TEJO.
AO SENHOR VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT.
PELO CONDE DE CAMBURZANO.
N’essas margens risonhas do Tejo
Não ha som que não cante de amor;