Na Lyrica de João Minimo, tal como no princípio d’este anno se publicou, está a infancia poetica, toda a vida juvenil do homem de lettras, do artista, do patriota sincero e innocente, do enthusiasta da Liberdade que ainda não conhece, que ama com exaltação, que serve com fervor, e pela qual sacrifica de bom grado a patria, o socêgo doméstico, a fortuna, a saude e quanto os homens mais prezam. Ha n’essa lyra uma corda que ja soa de amor, do amor apaixonado, ardente, cioso que um dia abafará talvez as outras todas. Mas os gemidos soltos que por agora lança, os vagos suspiros que balbucia mostram bem claro que no coração do poeta dormem ainda as tempestades que porventura lhe hãode agitar depois a vida. Para tudo o que não é a Patria e a Liberdade, é tibio e froixo o seu canto, desgarrado e mal sentido. Hade entrar muito fundo n’esse coração a pena ou o prazer, antes que chegue a fazer vibrar a corda íntima que está silenciosa, distendida—e apenas geme a espaços como harpa eolia pendente do ramo, que, agitada por incerta brisa, suspira vaga e saudosa, sem a percutir ninguem, por ninguem, por coisa nenhuma, e só movida de um indeterminado presentimento do que hade ser, do que póde ser, do que talvez não seja nunca.
Falla de amor o poeta... Sim, falla; e ha Délias e ha Lilias, e ha flores e ha estrêllas, e ha bejos e ha suspiros, e ha todo esse estado maior e menor de um exército de paixões que sai a conquistar o mundo no princípio da vida de um rapaz cheio de alma, de fogo, de exuberante energia e vehemencia de sangue. Mas esse exército é todo de parada, fórma bem na revista—em travando peleja séria, hade fugir, porque é boçal e não o anima nenhum sentimento verdadeiro e tenaz. Ve-se o poeta atravez do amante: falso amor e falsa poesia! Quando um e outro são verdade, não apparece senão o amante, não se ve senão a paixão, a arte some-se, annulla-se deante d’ella: então vem a poesia do coração.
Não ha ainda d’essa poesia na LYRICA DE JOÃO MINIMO. A da alma sim. Nos tres livros em que se divide a LYRICA estão as tres primeiras epochas da existencia do mancebo. As impressões e aspirações da infancia que desponta á puberdade, os instinctos da glória, do amor e do patriotismo suspiram no primeiro livro, que se sente escripto no socêgo da casa paterna á repousada sombra das faias e das larangeiras da sua ilha no meio do Athlantico,[1] e logo depois ás margens classicas do Mondego, nas horas vagas dos estudos superiores. O segundo livro é nova era para o poeta e para o patriota. Alceu imberbe, tribuno de dezeseis annos, levanta-se com a revolução, destitue todos os idolos velhos, e não canta senão hymnos á liberdade. O profundo sentimento monarchico lá resumbra todavia sempre dos mais exaltados cantos com que se insurge a sua musa revolucionaria. Ve-se que, apezar de todo o impeto que leva essa carreira, jamais hade precipitá-lo na anarchia. O irreconciliavel inimigo dos despotas e dos hypocritas não hade ser nunca o amigo dos demagogos, nem blasphemará jamais contra Deus e contra a religião em nome da liberdade que adora como emanação do seio divino.
No terceiro livro ahi está elle repousando no lar paterno das primeiras lidas públicas; ahi canta em suaves endeixas os mais puros affectos da familia, a saudade dos que ja não vivem, o carinho dos que ainda o abraçam. Mas a patria, essa patria que hade renegá-lo e proscrevê-lo d’ahi a pouco, a liberdade que hade fugir bem depressa, vem tirá-lo do seu momentaneo descanso. Os cinco annos da vida de Coimbra passaram, o socêgo da casa materna a que regressou cança-o. Elle que sai outra vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. A causa do povo é trahida, abandonada... elle não a abandona; prefere o exilio, e em terra extrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações, as suas saudades e a constancia indomita do auctor do CATÃO.
Tal é a historia da LYRICA DE JOÃO MINIMO, que termina em 1824.
Começa no anno seguinte a das FLORES SEM FRUCTO, collecção ja muito menos volumosa, porque a superabundancia de seus espiritos poeticos tem ja outras derivações. O CAMÕES, a DONA BRANCA, a ADOZINDA, absorvem muito d’elle. Fórma-se com a experiencia e a observação na terra extrangeira o talento do publicista, aperfeiçoa-se na patria com a práctica; começam as luctas politicas de 1826, em que o redactor do PORTUGUEZ e do CHRONISTA mostra que, se a natureza o fez poeta, o estudo e o amor do seu paiz o fizeram orador eloquente e escriptor politico abalisado.
Nova emigração, novos trabalhos litterarios e politicos, e novos cantos lyricos tambem, em que ora geme, ora triumpha a liberdade.—Mas no segundo dos dois livros das FLORES começam as paixões do coração a tomar posse mais ampla e mais tenaz do poeta. Sería que as desillusões da politica, os desappontamentos da vida pública, as deffecções da amizade o levassem a refugiar-se nas chymeras d’esse outro paiz de sonhos, em que o despertar não é todavia nem menos desanimado nem menos triste?
Não sei: a vida de um poeta hade sempre ter capítulos mysteriosos, transições inexplicaveis e inesperadas; a filiação de suas ideas e de seus sentimentos é quasi sempre cryptogamica. O certo é que, nas primeiras composições dramaticas do restaurador do nosso theatro, o amor não existe. No CATÃO e na MEROPE só ha as paixões d’alma, o amor da patria ou da familia; no GIL-VICENTE porêm ja o coração toma o primeiro logar,—disputado ainda pela glória, pela paixão das lettras, da arte—mas o primeiro.
N’esta segunda collecção lyrica do nosso auctor, basta a peça que tem por titulo As minhas asas para se ver que o homem público, o philosopho, o poeta da glória e da liberdade pagou emfim o tardio e pesado feudo de sua independencia vencida e subjugada. Até então as homenagens ao suzerano eram meias de escarneo, eram um tributo de condescendencia—de uma como elegante ironia! O estado de coisas é outro agora.
As FOLHAS CAHIDAS continuam esse estado. Os seus dois livros (que na primeira edição foram um só) visivelmente o mostram.