As FOLHAS CAHIDAS são o principal n’este segundo volume dos VERSOS, que vem a ser o terceiro, porque entre elle e o primeiro estão as FLORES SEM FRUCTO. As FÁBULAS e os SONETOS não são senão appendices ou accessorios; e por suas datas e por seu genero pertencem mais á primeira collecção de que acima fallámos, do que a ésta terceira de que vamos occupar-nos.
Aqui os sentimentos patrioticos, o amor da glória, o enthusiasmo da liberdade teem ainda saudosos ecchos na lyra do poeta. Mas a energia, a vehemencia de suas cordas não vibra ja senão com outra paixão mais ciosa e mais exclusiva. As Julias, as Délias, não se contentam ja de inspirar, dominam absolutamente o coração do poeta, os hymnos, as canções, as imprecações mesmas da sua lyra.
Que é de o Alceu que bramia liberdade, o Anacreonte que zombava com o prazer, o Tyrteu que precedia as phalanges da Terceira aopé do pendão azul e branco da joven Rainha dos exilados? Que é das elegias suaves e melancholicas do auctor do Camões? Que é feito dos desgarres semi-rabelaicos do poeta de Dona Branca, dos sarcasmos byronicos e incredulos, dos surrisos mephistophelicos espalhados por essas VIAGENS NA MINHA TERRA, pelo ARCO DE SANCT’ANNA, por tanto volume de prosas e de versos?
Tudo isso acabou, porque acabaram provavelmente todas as decepções do seu ânimo, e não ficou, em logar d’ellas, senão outra decepção maior que ingana mais cega, e venda mais apertada.
Taes são as FOLHAS CAHIDAS, última palavra até agora, mas que não será a derradeira do nosso poeta: affoitamente o confiâmos. Confiâmo-lo de seu ingenho grande, de sua alma elevada e nobre, traduzimo-lo da sua admiravel introducção ao pequeno volume que hoje reproduzimos.
As FOLHAS CAHIDAS não são o fim, são a transição.
O que virá depois sabe-o Deus, sabe-o o destino mysterioso de uma existencia á parte, que não tem lei nas regras, mas nas excepções da humanidade.
O tempo o mostrará, porque uma vida, que tam longa parece por tam cheia que tem sido, é ainda curta e môça bastante para nos deixar aguardar socegadamente pelo futuro que esperâmos d’ella... e muito!
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Em Angra, na ilha Terceira, capital dos Açores.