*Magdalena*. Pois sim, tereis razão… tendes razão, será tudo como dizeis. Mas reflecti, que haveis cabedal de intelligencia para muito:—eu resolvi-me por fim a casar com Manuel de Sousa; foi do apprazimento geral de nossas familias, da propria familia de meu primeiro marido, que bem sabeis quanto me estima; vivemos (com affectação) seguros, em paz e felizes… ha quatorze annos. Temos ésta filha, ésta querida Maria que é todo o gôsto e ância da nossa vida. Abençoou-nos Deus na formosura, no ingenho, nos dotes admiraveis d'aquelle anjo… E tu, tu, meu Telmo, que es tam seu, que chegas a pretender ter-lhe mais amor que nós mesmos…
*Telmo*. Não, não tenho!
*Magdalena*. Pois tens: melhor.—E es tu que andas, continuamente e quasi por accinte, a sustentar essa chymera, a levantar esse phantasma, cuja sombra, a mais remota, bastaria para innodoar a pureza d'aquella innocente, para condemnar a eterna deshonra a mãe e a filha… (Telmo dá signaes de grande agitação) Ora dize: ja pensastes bem no mal que estás fazendo?—Eu bem sei que a ninguem n'este mundo, senão a mim, fallas em taes coisas… fallas assim como hoje temos fallado… mas as tuas palavras mysteriosas, as tuas allusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quiz acreditar que morrêsse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade!—esses continuos agouros em que andas sempre de uma desgraça que está imminente sôbre a nossa familia… não ves que estás excitando com tudo isso a curiosidade d'aquella criança, aguçando-lhe o espirito—ja tam perspicaz!—a imaginar, a descobrir… quem sabe se a accreditar n'essa prodigiosa desgraça em que tu mesmo… tu mesmo… sim, não cres devéras? Não cres, mas achas não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, ve: se um terror similhante chega a entrar n'aquella alma, quem lh'o hade tirar nunca mais?… O que hade ser d'ella e de nós?—Não a perdes, não a mattas… não me mattas a minha filha?
*Telmo*, em grande agitação durante a falla precedente, fica pensativo e aterrado: falla depois como para si. É verdade que sim! A morte era certa.—E não hade morrer: não, não, não, tres vezes não. (Para Magdalena) Á fe de escudeiro honrado, senhora D. Magdalena, a minha bôcca não se abre mais; e o meu espirito hade… hade fechar-se tambem… (Á parte) Não é possivel, mas eu heide salvar o meu anjo do ceu! (Alto para Magdalena) Está ditto, minha senhora.
*Magdalena*. Ora Deus t'o pague,—Hoje é o último dia de nossa vida que se falla em tal.
*Telmo*. O último.
*Magdalena*. Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis…
*Telmo*. Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!… quatro passadas.
*Magdalena*. E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge-Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. (Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!… quasi que não ha vento, é uma viração que affaga… Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas—n'aquella tam bonita—venha Manuel de Sousa.—Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada… e então aqui o pontal de Cacilhas!—Que elle é tam bom mareante… Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares… E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.—Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.