*Magdalena*, aterrada. Era.
*Telmo*. Vivo não veiu… inda mal!—E morto… a sua alma, a sua figura…
*Magdalena*, possuida de grande terror. Jesus, homem!
*Telmo*. Não vos appareceu, decerto.
*Magdalena*. Não: credo!
*Telmo*, mysterioso. Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua primeira visita, como de razão, seria para minha senhora. Mas não se ia sem apparecer tambem ao seu aio velho.
*Magdalena*. Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoaes, e comtudo as vossas palavras mettem-me um medo… Não me façaes mais desgraçada.
*Telmo*. Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?—Que o pobre de meu amo… respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois… mas amor!
*Magdalena*. Não está em nós da-lo, nem quitá-lo, amigo.
*Telmo*. Assim é. Mas os ciumes que meu amo não teve nunca—bem sabeis que têmpera d'alma era aquella—tenho-os eu… aqui está a verdade nua e crua… tenho-os eu por elle: não posso, não posso ver… e desejo, quero, forcejo por me acostumar… mas não posso. Manuel de Sousa… o senhor Manuel de Sousa-Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom portuguez… mas—mas não é, nunca hade ser, aquelle espelho de cavallaria e gentilleza, aquella flor dos bons… Ah meu nobre amo, meu sancto amo!