*Magdalena*. Calae-vos, calae-vos, pelas dores de Jesus Christo, homem.

*Telmo*, soluçando. Minha ricca senhora!…

*Magdalena*, inchuga os olhos, e toma uma attitude grave e firme. Levantae-vos, Telmo, e ouvi-me. (Telmo levânta-se) Ouvi-me com attenção. É a primeira e será a última vez que vos fallo d'este modo e em tal assumpto.—Vós fostes o aio e amigo de meu senhor… de meu primeiro marido, o senhor D. João de Portugal; tinheis sido o companheiro de trabalho e de glória de seu illustre pae, aquelle nobre conde de Vimioso, que eu de tamanhinha me acostumei a reverenciar como pae. Entrei depois n'essa familia de tanto respeito; achei-vos parte d'ella, e quasi que vos tomei a mesma amizade que aos outros… chegastes a alcançar um podêr no meu espirito, quasi maior…—decerto, maior—que nenhum d'elles. O que sabeis da vida e do mundo, o que tendes adquirido na conversação dos homens e dos livros—porêm, mais que tudo, o que de vosso coração fui vendo e admirando cada vez mais—me fizeram ter-vos n'uma conta, deixar-vos tomar, intregar-vos eu mesma tal auctoridade n'esta casa e sôbre minha pessoa… que outros poderão estranhar…

*Telmo*. Emendae-o, senhora.

*Magdalena*. Não, Telmo, não preciso nem quero emendá-lo.—Mas agora deixae-me fallar.—Depois que fiquei so, depois d'aquella funesta jornada de Africa que me deixou viuva, orphan e sem ninguem… sem ninguem, e n'uma edade… com dezasette annos!—em vós, Telmo, em vós so, achei o carinho e protecção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em logar de pae: e eu… salvo n'uma coisa!—tenho sido para vós, tenho-vos obedecido como filha.

*Telmo*. Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos apartastes dos meus conselhos…

*Magdalena*. Para essa houve podêr maior que as minhas fôrças… D. João ficou n'aquella batalha com seu pae, com a flor da nossa gente. (Signal de impaciencia em Telmo) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memoria, como durante sette annos, incredula a tantas provas e testimunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as sejanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves ahi houve… Cabedaes e valimentos, tudo se impregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castella tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redempção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar n'aquellas terras, a todos se incommendava o seguir a pista do mais leve indício que podésse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquella notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha de Alcacer. Tudo foi inutil; e a ninguem mais ficou resto de dúvida…

*Telmo*. Senão a mim.

*Magdalena*. Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom Telmo! que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu…—E então sem nenhum fundamento, sem o mais leve indício… Pois dizei-me em consciencia, dizei-m'o de uma vez, claro e desinganado: a que se apéga ésta vossa credulidade de sette… e hoje mais quatorze… vinte e um annos?

*Telmo*, gravemente. Ás palavras, ás formaes palavras d'aquella carta escripta na propria madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge que vo-la trouxe.—«Vivo ou morto»—resava ella—vivo ou morto… Não me esqueceu uma lettra d'aquellas palavras; e eu sei que homem era meu amo para as escrever em vão:—«Vivo ou morto, Magdalena, heide ver-vos pelo menos ainda uma vez n'este mundo.»—Não era assim que dizia?