*Magdalena*. Que estás a dizer, filha, que estás a dizer? que desvarios! Uma menina do teu juizo, temente a Deus… não te quero ouvir fallar assim.—Ora vamos: anda ca, Maria, conta-me do teu jardim, das tuas flores. Que flores tens tu agora? O que são éstas? (pegando nas que ella traz na mão)

*Maria*, abrindo a mão e deixando-as cahir no regaço da mãe. Murchou tudo… tudo estragado da calma… Éstas são papoulas que fazem dormir, colhi-as para as metter debaixo do meu cabeçal ésta noite; quero-a dormir de um somno, não quero sonhar, que me faz ver coisas… lindas ás vezes, mas tam extraordinarias e confusas…

*Magdalena*. Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria, imaginar é sonhar: e Deus pôs-nos n'este mundo para velar e trabalhar—com o pensamento sempre n'elle sim, mas sem nos extranharmos a éstas coisas da vida que nos cercam, a éstas necessidades que nos impõe o estado, a condicção em que nascêmos. Ves tu, Maria: tu es a nossa unica filha, todas as esperanças de teu pae são em ti…

*Maria*. E não lh'as posso realizar, bem sei.—Mas que heide eu fazer? eu estudo, leio…

*Magdalena*. Les demais, cânças-te, não te distraes como as outras donzellas da tua edade, não es…

*Maria*. O que eu sou… só eu o sei, minha mãe… E não sei, não: não sei nada, senão que o que devia ser não sou…—Oh! porque não havia de eu ter um irmão que fosse um galhardo e valente mancebo, capaz de commandar os terços de meu pae, de pegar n'uma lança d'aquellas com que os nossos avós corriam a India, levando adeante de si Turcos e Gentios! um bello moço que fosse o retratto proprio d'aquelle gentil cavalleiro de Malta que alli está. (Apontando para o retratto) Como elle era bonito meu pae! Como lhe ficava bem o preto!… e aquella cruz tam alva em cima! Paraque deixou elle o hábito, minha mãe, porque não ficou n'aquella sancta religião, a vogar em suas nobres galeras, por esses máres, e a affugentar os infieis deante da bandeira da Cruz?

*Magdalena*. Oh filha, filha!… (Mortificada) porque não foi vontade de Deus: tinha de ser d'outro modo.—Tomára eu agora que elle chegásse de Lisboa! Comeffeito é muito tardar… valha-me Deus!

SCENA V

JORGE, MAGDALENA, MARIA

*Jorge*. Ora seja Deus n'esta casa!