SCENA VII

JORGE, MAGDALENA, MARIA, MIRANDA, MANUEL DE SOUSA entrando com varios criados que o seguem—alguns com brandões accesos.—É noite fechada.

*Manuel*, parando juncto da porta, para os criados. Façam o que lhes disse. Ja, sem mais detença! Não apaguem esses brandões; incostem-n'os ahi fóra no patim. E tudo o mais que eu mandei.—(Vindo ao proscenio) Magdalena! Minha querida filha, minha Maria! (Abraça-as) Jorge, ainda bem que aqui estás, preciso de ti: bem sei que é tarde e que são horas conventuaes; mas eu irei depois comtigo dizer a «mea culpa» e o «peccavi» ao nosso bom prior.—Miranda, vinde ca. (Vai com elle á porta da esquerda, depois ás do eirado, e dá-lhe algumas ordens baixo.)

*Magdalena*. Que tens tu? nunca entraste em casa assim. Tens coisa que te dá cuidado… e não m'o dizes? O que é?

*Manuel*. É que… Senta-te, Magdalena; aqui aopé de mim, Maria; Jorge, sentemo'-nos que estou cançado. (Sentam-se todos) Pois agora sabei as novidades, que seriam extranhas se não fosse o tempo em que vivêmos. (Pausa) É preciso sahir ja d'esta casa, Magdalena.

*Maria*. Ah! inda bem, meu pae!

*Manuel*. Inda mal! mas não ha outro remedio. Sahiremos ésta noite mesma. Ja dei ordens a toda a familia: Teimo foi avisar as tuas aias do que haviam de fazer, e lá anda pelas cameras velando n'esse cuidado. Sempre é bom que vas dar um relance d'olhos ao que por lá se faz: eu tambem irei por minha parte.—Mas temos tempo: isto são oito horas, á meia noite vão quatro; d'aqui lá o pouco que me importa salvar estará salvo… e elles não virão antes da manhan.

*Magdalena*. Então sempre é verdade que Luiz de Moura e os outros governadores?…

*Manuel*. Luiz de Moura é um villão ruim, faz como quem é: o arcebispo é… o que os outros querem que elle seja. Mas o conde de Sabugal, o conde de Sancta-Cruz, que deviam olhar por quem são, e que tomaram este incargo odioso… e vil, de opprimir os seus naturaes em nome de um rei extrangeiro!… Oh que gente, que fidalgos portuguezes!… Heide-lhes dar uma licção, a elles, e a este escravo d'este povo que os soffre, como não levam tyrannos ha muito tempo n'esta terra.

*Maria*. O meu nobre pae! Oh, o meu querido pae! Sim, sim, mostrae-lhes quem sois e o que vale um portuguez dos verdadeiros.