*Magdalena*. Meu adorado espôso, não te deites a perder, não te arrebates. Que farás tu contra esses poderosos? Elles ja te querem tam mal pelo mais que tu vales que elles, pelo teu saber—que esses grandes fingem que desprezam… mas não é assim, o que elles teem é inveja!—O que fará, se lhes deres pretexto para se vingarem da affronta em que os traz a superioridade do teu merito!—Manuel, meu espôso, Manuel de Sousa, pelo nosso amor…

*Jorge*. Tua mulher tem razão. Prudencia, e lembra-te de tua filha.

*Manuel*. Lembro-me de tudo, deixa estar.—Não te inquietes, Magdalena: elles querem vir para aqui ámanhan de manhan; e nós forçosamente havemos de sahir antes d'elles entrarem. Por isso é preciso ja.

*Magdalena*. Mas para onde iremos nós, derepente, a éstas horas?

*Manuel*. Para a unica parte para onde podêmos ir: a casa não é minha… mas é tua, Magdalena.

*Magdalena*. Qual?… a que foi?… a que péga com San'Paulo?… Jesus me valha!

*Jorge*. E fazem muito bem: a casa é larga e está em bom reparo, tem ainda quasi tudo de trastes e paramentos necessarios: pouco tereis que levar comvosco.—E então para mim, para os nossos padres todos que alegria! Ficâmos quasi debaixo dos mesmos telhados.—Sabeis que tendes alli tribuna para a capella da Senhora da Piedade, que é a mais devota e a mais bella de toda a egreja… Ficâmos como vivendo junctos.

*Maria*. Tomára-me eu ja lá. (Levânta-se pulando.)

*Manuel*. E são horas, vamos a isto. (Levantando-se.)

*Magdalena*, vindo para elle. Ouve, escuta, que tenho que te dizer; por quem es, ouve: não haverá algum outro modo?