*Manuel*, tranquillamente. Illumino a minha casa para receber os muito poderosos e excelentes senhores governadores d'estes reinos. Suas excellencias podem vir quando quizerem.

*Magdalena*. Meu Deus, meu Deus!… Ai, e o retratto de meu marido!…
Salvem-me aquelle retratto.

(Miranda e outro criado vão para tirar o painel; uma columna de fogo salta nas tapeçarias e os afugenta.)

*Manuel*. Parti, parti. As materias inflammaveis que eu tinha disposto vão-se ateando com espantosa velocidade. Fugi.

*Magdadena*, cingindo-se ao braço do marido. Sim, sim, fujamos.

*Maria*, tomando-o do outro braço. Meu pae, nós não fugimos sem vós.

(Redobram os gritos de fóra, ouve-se rebate de sinos; cai o panno.)

ACTO SEGUNDO

É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal. Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval; sôbre o escudo coroa de conde. No fundo um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada.

SCENA I