*Telmo*, com anciedade. E ésta noite ainda lidou muito n'isso?
*Maria*. Não; desde hontem pela tarde, que ca esteve o tio Frei Jorge e a animou com muitas palavras de consolação e de esperança em Deus, e que lhe disse do que contava abrandar os governadores, minha mãe ficou outra; passou-lhe de todo, ao menos até agora.—Mas então, vamos, tu não me dizes do retratto? Olha: (designando o d'elrei D. Sebastião) aquelle do meio, bem sabes se o conhecerei: é o do meu querido e amado rei D. Sebastião. Que majestade! que testa aquella tam austera, mesmo d'um rei môço e sincero ainda, leal, verdadeiro, que tomou ao serio o cargo de reinar, e jurou que hade ingrandecer e cobrir de glória o seu reino! Elle alli está… E pensar que havia de morrer ás mãos de mouros, no meio de um deserto, que n'uma hora se havia de apagar toda a ousadia reflectida que está n'aquelles olhos rasgados, no apertar d'aquella bôcca!… Não póde ser, não póde ser. Deus não podia consentir em tal.
*Telmo*. Que Deus te ouvisse, anjo do ceu!
*Maria*. Pois não ha prophecias que o dizem? Ha, e eu creio n'ellas. E tambem creio n'aquell'outro que alli está; (indica o retratto de Camões) aquelle teu amigo com quem tu andáste lá pela India, n'essa terra de prodigios e bizarrias, por onde elle ia… como é? ah, sim…
«N[~u]a mão sempre a espada e n'outra a penna…»
*Telmo*. Oh! o meu Luiz, coitado! bem lh'o pagaram. Era um rapaz, mais moço do que eu, muito mais… e quando o vi a última vez… foi no alpendre de San'Domingos em Lisboa—parece-me que o estou a ver—tam mal trajado, tam incolhido… elle que era tam desimbaraçado e galan… e então velho! velho alquebrado,—com aquelle ôlho que valia por dois, mas tam summido e incovado ja, que eu disse commigo: «Ruim terra te comerá cedo, corpo da maior alma que deitou Portugal!»—E dei-lhe um abraço… foi o último… Elle pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento ca por dentro, e disse-me: «Adeus, Telmo! San'Telmo seja commigo n'este cabo da navegação… que ja vejo terra, amigo»—e apontou para uma cova que alli se estava a abrir.—Os frades resavam o officio dos mortos na egreja… Elle entrou para lá, e eu fui-me embora. D'ahi a um mez, vieram-me aqui dizer: «Lá foi Luiz de Camões n'um lençol para Sant'Anna.» E ninguem mais fallou n'elle.
*Maria*. Ninguem mais!… Pois não tem aquelle livro que é para dar memória aos mais esquecidos?
*Telmo*. O livro sim: acceitaram-n'o como o tributo de um escravo. Estes riccos, estes grandes, opprimem e desprezam tudo o que não são as suas vaidades, tomaram o livro como uma coisa que lhes fizesse um servo seu e para honra d'elles. O servo, acabada a obra, deixaram-n'o morrer ao desamparo sem lhe importar com isso… Quem sabe se folgaram? podia pedir-lhes uma esmolla—escusavam de se incommodar a dizer que não.
*Maria*, com enthusiasmo. Está no ceu.—Que o ceu fez-se para os bons e para os infelizes, para os que ja ca da terra o adivinharam!—Este lia nos mysterios de Deus; as suas palavras são de propheta. Não te lembras o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?… como havia de elle então morrer? Não morreu. (Mudando de tom) Mas o outro, o outro… quem é est'outro, Telmo? Aquelle aspecto tam triste, aquella expressão de melancholia tam profunda… aquellas barbas tam negras e cerradas… e aquella mão que descança na espada como quem não tem outro arrimo, nem outro amor n'esta vida…
*Telmo*, deixando-se surprehender. Pois tinha, oh se tinha…