SCENA I

MANUEL DE SOUSA, sentado n'um tamborete, aopé da mesa, o rosto inclinado sôbre o peito, os braços cahidos e em completa prostração d'espirito e de corpo; n'um tamborete do outro lado JORGE, meio incostado para a mesa, com as mãos postas, e os olhos pregados no irmão.

*Manuel*. Oh minha filha, minha filha! (Silencio longo) Desgraçada filha, que ficas orphan!… orphan de pae e mãe… (pausa)… e de familia e de nome, que tudo perdêste hoje… (Levânta-se com violenta afflição) A desgraçada nunca os teve!—Oh Jorge, que ésta lembrança é que me matta, que me desespera! (Appertando a mão do irmão, que se levantou após d'elle e o está consolando do gesto.) É o castigo terrivel do meu êrro… se foi êrro… crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!

*Jorge*. Paciencia, paciencia: os seus juizos são imperscrutaveis. (Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam.)

*Manuel*. Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra,
pôsto de alvo á irrisão e ao discursar do vulgo?… Manuel de
Sousa-Coutinho, o filho de Lopo de Sousa-Coutinho, o filho do nosso pae,
Jorge!

*Jorge*. Tu chámas-te o homem mais infeliz da terra… Ja te esquecêste que ainda está vivo aquelle…

*Manuel*, cahindo em si. É verdade. (Pausa; e depois como quem se desdiz) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e bebeu até ás fezes o calix das amarguras humanas… (Levantando a voz) Mas fui eu, eu que lh'o preparei, eu que lh'o dei a beber, pelas mãos… innocentes mãos!… d'essa infeliz que arrastei na minha quéda, que lancei n'esse abysmo de vergonha, a quem cobri as faces—as faces puras, e que não tinham córado d'outro pejo senão do da virtude e do recato… cobri-lh'as de um veo d'infamia que nem a morte hade levantar, porque lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sôbre o tumulo a cobrir-lhe a memória de sombras… de manchas que se não lavam!—Fui eu o auctor de tudo isto, o auctor da minha desgraça e da sua deshonra d'elles… Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?

*Jorge*. Ve a palavra que disseste: «deshonra»: lembra-te d'ella e de ti, e considera, se podes pleitear miserias com esse homem a quem Deus não quiz accudir com a morte antes de conhecer ess'outra agonia maior.—Elle não tem…

*Manuel*. Elle não tem uma filha como eu, desgraçado… (pausa)—uma filha bella, pura, adorada, sôbre cuja cabeça—oh! porque não é na minha!—vai cahir toda essa deshonra, toda a ignominia, todo o opprobrio que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra culpa senão a da origem que eu lhe dei.

*Jorge*. Não é assim, meu irmão; não te cegues com a dor, não te faças mais infeliz do que es. Ja não es pouco, meu pobre Manuel, meu querido irmão! e Deus hade levar em conta essas amarguras. Ja que te não póde apartar o calix dos beiços, o que tu padeces, hade ser descontado n'ella, hade resgatar a culpa…