*Magdalena*. O amigo e camarada antigo de seu pae?

*Telmo*. Não, minha senhora, não, por certo.

*Magdalena*. Então?…

*Telmo*. Nada. Continuae, dizei, minha senhora.

*Magdalena*. Pois está bem.—Digo que mal sei dar-vos conselhos, e não queria dar-vos ordens… Mas, meu amigo, tu tomáste—e com muito gôsto meu e de seu pae, um ascendente no espirito de Maria… tal que não ouve, não cre, não sabe senão o que lhe dizes. Quasi que es tu a sua donna, a sua aia de criação.—Parece-me… eu sei… não falles com ella d'esse modo, n'essas coisas…

*Telmo*. O quê? No que me disse o inglez, sôbre a sagrada Escriptura que elles lá teem em sua lingua, e que?…

*Magdalena*. Sim… n'isso decerto… e em tantas outras coisas tam altas, tam fóra de sua edade, e muitas do seu sexo tambem, que aquella criança está sempre a querer saber, a perguntar.—É a minha unica filha: não tenho… nunca tivemos outra… e, além de tudo o mais, bem ves que não é uma criança… muito… muito forte.

*Telmo*. É… delgadinha, é. Hade inrijar. É tê-la por aqui, fóra d'aquelles ares apestados de Lisboa; e deixae, que se hade pôr outra.

*Magdalena*. Filha do meu coração!

*Telmo*. E do meu.—Pois não se lembra, minha senhora, que ao principio, era uma criança que eu não podia…—é a verdade, não a podia ver: ja sabereis porquê… mas vê-la, era ver… Deus me perdoe!… nem eu sei…—E d'ahi começou-me a crescer, a olhar para mim com aquelles olhos… a fazer-me taes meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de formosura e de bondade, que—vêdes-me aqui agora que lhe quero mais do que seu pae.