*Jorge*. Haverá duas horas que entrei na sua camera, e estive aopé do leito. Dormia, e mais socegada da respiração. O accesso de febre, que a tomou quando chegámos de Lisboa e que viu a mãe n'aquelle estado,—parecia declinar… quebrar-se mais alguma coisa. Dorothea, e Telmo… pobre velho coitado!… estavam aopé d'ella, cada um de seu lado… disseram-me que não tinha tornado a… a…

*Manuel*. A lançar sangue?… Se ella deitou o do coração!… não tem mais. N'aquelle corpo tam franzino, tam delgado, que mais sangue hade haver?—Quando hontem a arranquei d'aopé da mãe e a levava nos braços, não m'o lançou todo ás golfadas aqui no peito? (Mostra um lenço branco todo manchado de sangue) Não o tenho aqui… o sangue… o sangue da minha víctima?… que é o sangue das minhas veias… que é o sangue da minha alma—é o sangue da minha querida filha! (Beija o lenço muitas vezes) Oh meu Deus, meu Deus! eu queria pedir-te que a levasses ja… e não tenho ânimo. Eu devia acceitar por mercê de tuas misericordias que chamasses aquelle anjo para junto dos teus, antes que o mundo, este mundo infame e sem commiseração, lhe cuspisse na cara com a desgraça do seu nascimento.—Devia, devia… e não posso, não quero, não sei, não tenho ânimo, não tenho coração. Peço-te vida, meu Deus (ajoelha e põe as mãos) peço-te vida, vida, vida… para ella, vida para a minha filha!… saude, vida para a minha querida filha!… e morra eu de vergonha, se é preciso; cubra-me o escarneo do mundo, deshonre-me o opprobrio dos homens, tape-me a sepultura uma loisa de ignominia, um epitaphio que fique a bradar por essas eras deshonra e infamia sôbre mim!… Oh meu Deus, meu Deus! (Cái de bruços no chão… Passado algum tempo, Frei Jorge se chega para elle, levanta-o quasi a pêso, e o torna a assentar.)

*Jorge*. Manuel, meu bom Manuel, Deus sabe melhor o que nos convem a todos: põe nas suas mãos esse pobre coração, põe-n'o resignado e contricto, meu irmão, e Elle fará o que em sua misericordia sabe que é melhor.

*Manuel*, com vehemencia e medo. Então desinganas-me… desinganas-me ja?… é isso que queres dizer? Falla, homem: não ha que esperar?… não ha que esperar d'alli, não é assim? dize: morre, morre?… (desanimado) Tambem fico sem filha!

*Jorge*. Não disse tal. Por charidade comtigo, meu irmão, não imagines tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos opprimida; dormia…

*Manuel*, variando. Se Deus quizera que não acordásse!

*Jorge*. Valha-me Deus!

*Manuel*. Para mim aqui está ésta mortalha: (tocando no hábito) morri hoje… vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo… não era, Jorge; tu bem sabes que não era: foi um anjo que veiu do ceu para me acompanhar na peregrinação da terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna pousada d'onde viera e onde me conduzia… Separou-nos o archanjo das desgraças, o ministro das iras do Senhor que derramou sôbre mim o vaso cheio das lagrymas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua cholera… (Cahindo de tom) Vou com ésta mortalha para a sepultura… e, viva ou morta, ca deixo a minha filha no meio dos homens que a não conheceram, que a não hãode conhecer nunca, porque ella não era d'este mundo nem para elle… (Pausa)—Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez, vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso… mas heide ir, oh! heide ir vê-la e beijá-la antes de descer á cova… Tu não queres, não podes querer…

*Jorge*. Havemos de ir… quando estiveres mais socegado… havemos de ir ambos: descança, hasde vê-la.—Mas isto inda é cedo.

*Manuel*. Que horas serão?