*Jorge*. Quatro, quatro e meia. (Vai á porta da esquerda e volta) São cinco horas, pelo alvor da manhan que ja dá nos vidros da egreja. D'aqui a pouco iremos; mas socega.

*Manuel*. E a outra… a outra desgraçada, meu irmão?

*Jorge*. Está—imagina por ti—está como não podia deixar de estar: mas a confiança em Deus póde muito: vai-se conformando. O Senhor fará o resto.—Eu tenho fe n'este escapulario (tocando no hábito em cima da mesa) para ti e para ella. Foi uma resolução digna de vós, foi uma inspiração divina que os allumiou a ambos. Deixa estar; ainda póde haver dias felizes para quem soube consagrar a Deus as suas desgraças.

*Manuel*. E isso está tudo prompto? Eu não soffro n'estes hábitos, eu não aturo, com estes vestidos de vivo, a luz d'esse dia que vem a nascer.

*Jorge*. Está tudo concluido. O arcebispo mostrou-se bom e piedoso prelado n'esta occasião: e é um sancto homem, é. O arcebispo ja expediu todas as licenças e mais papeis necessarios. Coitado! o pobre do velho velou quasi toda a noite com o seu vigario para que não faltásse nada desde o romper do dia. Mandou-se ao provincial, e pela sua parte e pela nossa tudo está corrente. Frei João de Portugal, que é o prior de Bemfica, e tambem vigario do Sacramento, sabes, chegou haverá duas horas, noite fechada ainda, e ca está: é quem te hade lançar o hábito, a ti e a Dona… a minha irman.—Depois ireis, segundo o vosso desejo, um para Bemfica, outro para o Sacramento.

*Manuel*. Tu es um bom irmão, Jorge: (apperta-lhe a mão) Deus t'o hade pagar. (Pausa) Eu não me atrevo… tenho repugnancia… mas é forçoso perguntar-te por alguem mais. Onde está elle… e o que fará!…

*Jorge*. Bem sei, não digas mais: o romeiro. Está na minha cella, e de lá não hade sahir—que foi ajustado entre nós—senão quando… quando eu lh'o disser. Descança: não verá ninguem, nem será visto de nenhum d'aquelles que o não devem ver. Demais, o segrêdo de seu nome verdadeiro está entre mim e ti—além do arcebispo, a quem foi indispensavel communicá-lo para evitar todas as formalidades e delongas que aliás havia de haver n'uma separação d'esta ordem.—Ainda ha outra pessoa com quem lhe prometti—não pude deixar de prometter, porque sem isso não queria elle entrar em accôrdo algum—com quem lhe prometti que havia de fallar hoje e antes de mais nada.

*Manuel*. Quem? será possivel?… Pois esse homem quer ter a crueldade de rasgar, fevra a fevra, os pedaços d'aquelle coração ja partido?—Não tem intranhas esse homem: sempre assim foi, duro, desapiedado como a sua espada.—É D. Magdalena que elle quer ver?…

*Jorge*. Não, homem; é o seu aio velho, é Telmo-Paes. Como lh'o havia de eu recusar?

*Manuel*. De nenhum modo: fizeste bem; eu é que sou injusto. Mas o que eu padeço é tanto e tal!…—Vamos; eu ainda me não intendo bem claro com ésta desgraça: dize-me, falla-me a verdade: minha mulher…—minha mulher! com que bôcca pronuncio eu ainda éstas palavras!—D. Magdalena o que sabe?