*Telmo*. Não m'o pergunteis.
*Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!—Tiraram-me tudo. (Pausa)—E teem um filho elles?…—Eu não…—E mais, imagino… Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.—Telmo, vai fazer o que te mandei.
*Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?
*Romeiro*. O que te ordena teu amo.—Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se) Adeus, adeus até…
*Telmo*. Até quando, senhor?
*Romeiro*. Até ao dia de juizo…
*Teimo*. Pois vós?…
*Romeiro*. Eu…—Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê?—D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle amava… oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle ja não póde amar sem deshonra e vergonha!… Na hora em que ella accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e de impostor… dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a memória d'elle que fique sem mancha.—Está em tuas mãos, Telmo, intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?
*Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde ella approveitar ainda?
*Romeiro*. Porque não?