Ernesto Chardron, Editor
1884
Porto: 1884—Typ. de A. J. da Silva Teixeira
62, Rua da Cancella Velha, 62
O RETRATO DE VENUS
ADVERTENCIA
Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações. Porém ésta minha repugnancia não é filha de presumpção, nem de orgulho. De todo o meu coração o digo, e todos os que me conhecem, o sabem. Nascem da persuasão, em que estou, de que a justificação d’uma cousa está na maneira por que essa cousa se faz. E applicando ésta generalidade ás composições litterarias, cada vez me convenço mais que os prologos, prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem, nem fizeram, nem farão nunca ao conceito que da obra se fórma.
E principio foi este, por que na faxada do meu poema não puz tal ceremonia. Revendo-o porem agora, examinando este Ensaio, e conhecendo-lhe infindos defeitos, que me tinham escapado; sendo-me impossivel emenda-los; resolvo-me a dar satisfação; não para pretender justifica-los, e salvar-me da crítica com subtilezas, e argucias; mas para fazer confissão pública d’elles.
Se me é licito porem dizer duas palavras em meu abono, direi que tanto o poema, como as notas, e ensaio são da minha infancia poetica; são compostos na idade de dezasette annos. Isto não é impostura: sobejas pessoas ha hi, que m’o viram começar, e acabar então. É certo que desde esse tempo ategora, em que conto quasi vinte e dous, por tres vezes o tenho corrigido; e até submettido á censura de pessoas doutas, e de conhecida philologia, como foi o Excellentissimo Senhor S. Luiz, que me honrou a mim, e a este opusculo com suas correcções. Mas todos estes cuidados não puderam (emquanto a mim) tirar-lhe o vicio do nascimento.
Eis aqui a minha confissão geral. Os que me absolverem ficar-lhes-hei muito obrigado; os que não quizerem, paciencia; não me mato por isso. Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a por divertimento: publico-a por amor das artes: se me criticarem, rio-me, e não fico mal com ninguem.