O RETRATO DE VENUS
POEMA

.... while it pursues
Things unnattempted yet in prose, or rhyme.
Milt. Parad. loste: book I. V. 15.


CANTO PRIMEIRO

Doce mãe do universo, ó Natureza,
Alma origem do ser, germe da vida,
Tu, que matizas de verdor mimoso
Na estação do prazer o monte, o prado,
E á voz fagueira de celeste gôso
De multimodos entes reproduzes
A variada existencia, e lh’a prolongas;
Que, no fluido immenso legislando,
Libras sem conto ponderosos mundos,
Que na ellipse invariavel rotam fixos,
Ó alma do universo, ó Natureza,
Teus sacros penetraes em vôo ardido
Busco, rasgo-lhe o véo, prescruto, e vejo
Insondaveis mysterios: puro, e simples
Nunca ouvidas canções na lyra entôo.
Nua d’enfeites vãos a face amena
Tu volve ao mundo, que te ignora errado.
Qual és, qual foste, qual te apura os mimos
A arte engenhosa, tu lhe amostra e ensina.
Como é dado aos mortaes bellezas tuas
C’o divino pincel, co’as magas tintas
Estremar com primor, colher-lhe o bejo,
Sem donosas ficções meu canto ensine.
Ficções!... E aureas ficções desdenha o sabio?
A douta, a mestra antiguidade o diga.
Não; fabula gentil, volve a meus versos;
Orna-me a lyra c’os festões de rosas,
Que ás margens colhes da Castalia pura:
Flores, que outr’ora de Epicuro ao vate
C’o austero assumpto lhe entrançaste amenas,
Essas no canto me desparze agora.
Venus, Venus gentil! Mais doce, e meigo
Soa este nome, ó Natureza augusta.
Amores, graças, revoae-lhe emtorno,
Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;
Que inflamma os corações, que as almas rende.
Vem, ó Cypria formosa, oh! vem do Olympo,
Vem c’um mago surrir, c’um terno bejo
Fazer-me vate, endeusar-me a lyra.
E quanto pódes c’um surriso, ó Venus!
Jove, que empunhe o temeroso raio;
Neptuno as ondas tempestuoso agite;
Torvo Sumano desenfreie as furias...
Se dos olhos gentis, dos labios meigos
Desprender um surriso a Idalia deusa,
Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olympo.
Mas quanto é bello, é grato o vencimento,
Se á dor suave do pungir fagueiro,
Da ferida se encontra amigo balsamo,
E nos olhos da linda vencedora
Do ardimento o perdão brando se accolhe!
Tu, Marte, o dize, o Cyprio moço, o Teucro;
E vós, que ousais na terra imitar numes,
Que do summo prazer rompendo arcanos,
N’um momento gosais da eternidade.
Emquanto nas lidadas officinas,
Forjando o raio vingador dos numes,
Vive o coxo marido sem receios,
Ja deslembrado da traidora rede;
Do Cynireo mancebo entre os abraços,
Jaz a espôsa gentil ennamorada.
Nas languidas pupillas lhe transluze
O prazer divinal, que a opprime, e anceia;
Nos inflammados bejos, nas caricias,
No palpitar do seio voluptuoso,
No lascivo apertar dos braços niveos,
Nos olhos, em que a luz quasi se extingue,
Na interrompida voz, que balbucia,
Nos derradeiros ais, que desfalecem...
Quem do prazer não reconhece a deusa
No excesso do prazer quasi espirando?
Surri-lhe ao lado o filho de travesso,
E d’entre o myrtho as candidas pombinhas
C’o estremecido arrulho a dona imitam.
Ah! se o gôsto supremo a um deus não peja,
Porquê mesquinhas leis nos vedam barbaras
Tam suave pecar, doce delicto,
Antes virtude, que natura ensina!
Dest’arte as breves horas decorriam
Aos alheados, férvidos amantes;
E vezes tres rotára o disco argenteo
Trivia gentil, semque no Olympo, ou Lemnos
A espôsa de Vulcano apparecesse.
Ja na etherea mansão vagos juizos
Maliciosos forma a inveja, a intriga;
E surriso maligno ás deusas todas,
Do marido infeliz excita o fado.
Em zelosa vingança affana e freme
O despeitoso Marte; corre, voa,
E em busca da infiel vagueia o mundo.
Coxeando o segue o malfadado espôso,
Dos antigos errores esquecido:
Tal é, paixão zelosa, o teu imperio!
Eis do somno d’amor espavoridos,
Os dous amantes c’o ruido accordam.
De pavor esmorece o joven timido;
Por elle anceia a carinhosa amante,
Descuidosa de si; geme, soluça.
E do amado na dor, sua dor recresce.
Que fará?... vacillante... Adonis... Marte...
O espôso... Ideias, que alma lhe confundem!
Com o amante ficar, morrer com elle?
Defender com seu peito o peito amado?
E salval-o é possivel d’esta sorte?
Deixa-lo?... Fera ideia!... Ir as suspeitas
Dos numes dissipar com sua presença?
Que! deixa-lo! o seu bem! Venus a Adonis!
Tanto não póde a mesma divindade.
Mas este só lhe resta unico meio:
É forçoso: comsigo ao carro o sobe;
Voa a Paphos, e ás Graças lisongeiras
O precioso pinhor saudosa entrega,
Que n’um basto rosal mimoso o guardem,
Velem sempre por elle, té que aos deuses
Se esvaeça o furor. Subito ao Olympo,
Composto o vulto, serenando os olhos,
N’um momento chegou: mago atractivo
Que lhe spira dos labios, das pupillas,
Do todo encantador, odios, suspeitas
Desfaz, esquece em animos divinos:
Tam pouco, ó bellas, persuadir-nos, custa!
Arde voltar ao suspirado asylo;
Mas teme a vejam desconfiados olhos;
E em tanto Adonis geme, e o seu tormento
Mais que o proprio penar lhe punge n’alma.
Disenhos volve... Alfim um lhe suscita
Novo a mente engenhosa: ei-lo abraçado.
Jaz muito alem do tormentorio cabo,
(Sempiterno brasão da Lusa gloria)
Em não sabido mar, jamais sulcado,
Ilha aprazivel, deliciosa, e breve.
A mão dos homens destruidora, e barbara,
Mimos da creação não lhe estragára.
A seu grado crescia o bosque, a selva;
Vecejava sem leis o prado ameno;
D’alvas pedrinhas pelo leito amigo
Se espreguiçava o crystalino arroio,
Sem temer que impia dextra ouse perversa,
No brando curso interromper-lhe as aguas.
Prêsas não gemem fugitivas Nayas,
Nem Dryades gentis feridas choram:
Sem arte a natureza era inda a mesma.
No mais escuro do copado bosque
Ternas suspiram maviosas rôlas;
E em mais alegres sons, prazer mais ledo,
A meiga ave d’amor no arrulho exprime.
Outro vivente algum a aura fagueira
Não ousa respirar. Silencio eterno
Impera na soidão, dobra-lhe encantos.
Tam suave mansão nem mesmo os numes
No ceo conhecem. Da ternura a deusa,
Só Venus sabe do recanto ameno.
Tu, do universo creador principio,
Venus! oh mãe d’amor, oh mãe de tudo!
Que amor é tudo, que só tu com elle,
Ambos creastes e regeis o mundo,
Que a natureza sois, ou ella é vossa:
Cypria, Cypria gentil, pódes acaso
Ignorar uma só das obras tuas?
«Mãe, (lhe diz, entre alegre e malicioso,
Mas compassivo, o filho), «nessa ignota
«Ilha do Indico mar...»—Um doce bejo
O concelho pagou.—Subito parte.
Lá chega; e nova se difunde a vida
Na solitaria estancia; em novos germes
O deleite, o prazer renascem, pulam.
Quam doces d’antemão gosou delicias
A mui fagueira deusa! O sitio ameno
Extasiada contempla. «Oh! quam ditosos
(Clamou) «seremos! Ignorado, occulto,
Ó doce amante, viverás sem medo.
Aqui, no seio da ventura e gôso,
Nos meus braços...» Parou suspensa, e geme:
Cruel lembrança lhe assomou na mente;
Agros deveres, perfidas suspeitas,
Quantas vezes do amante hão de aparta-la!
Suspira: as rosas do prazer se esvaem
Das lindas faces niveas. Pensativa,
Melancolica, e triste... (Eis fausto agouro!)
Estremecido arrulho alvas pombinhas
Deram á sestra mão. Ah! sim: é elle:
Amor, apoz a mãe, veio ajuda-la.
«Filho (co’a voz lhe diz, que impera em Jove,
Que tam suave rege a natureza),
«Tu me feriste; não accuso o golpe:
Amo, adoro esse ferro, que me punge,
Que na chaga, que abriu, doçura entorna;
Só quero, só te peço (que não peja
De implorar-te soccorro a mãe ferida)
Derradeira mercê: oh! deixa um pouco
D’humanos corações facil conquista:
Cesse qualquer amor quando ama Venus.
A culta Europa rapido discorre,
E a progenie d’Apollo, almos, divinos,
Os pintores me traze aqui n’um ponto.
Pasmou c’o rôgo inesperado o numen:
A causa inquire. «Ah! não: (lhe torna a deusa)
Não cumpre ainda revelar-t’a, ó filho;
Cubra o véo do mysterio o doce intento.»
Mal disse: e o raio mais veloz não rue
Da rubra dextra do Tonante irado,
Do que a tuba dos candidos amores
Á voz da deusa fende os ares liquidos.
Quaes voam de Minerva ao sabio clima,
Hoje torpe, e servil c’o bruto imperio:
Quaes á augusta senhora do universo;
Senhora, emquanto Roma era inda Roma:
Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco:
Á formosa Bolonha, á gran Veneza;
Grande emquanto reinou sobre o Oceano:
Quaes á suberba Gallia, á Iberia, a Lysia;
Que de Lysia tambem, tam cara ás musas,
Da poesia a rival, a irman tem filhos.
De toda a parte a obedecer contentes
Correm ao mando de Cyprina bella,
Da natura em despeito, homens creadores,
Prometheus, que á materia informe e bruta
C’o divino pincel dão fórma, e vida;
Erguem da campa gerações extinctas;
Plantam copados, que enfloream, bosques;
Co’a viva historia os homens eternisam;
E, fitando no ceo audazes vistas,
Aos pasmados sentidos apresentam
Visivel, sem rebuço a divindade.
Da fertil em prodigios, d’alta Grecia
O pae d’arte divina, Apelles marcha,
Thimante, Zeuxis, e Parrhasio, e quantos
A culta Grecia, a deliciosa Roma
Famosos produziu em sec’los d’ouro.
Cimabúe famoso apoz caminha,
Que as esfriadas cinzas animando
Do engenho, do talento, o faxo vívido
Fez na Europa brilhar, e abriu de novo
O caminho gentil da natureza
Do barbaro furor fechado, ha muito.
Aos golpes crebros, incessantes, duros
Da ferrea mão do avaro despotismo,
Sem fôrças, sem vigor jazia, ha muito,
A misera Bysancio. Em surda guerra
Fallaz superstição d’infames bonzos,
Fanatismo cruel, bifronte, e iniquo,
Hypocrisia vil, perfida e dobre,
Ruina infausta lhe apressava, e morte.
Ávidos sorvos de Roman cubiça,
Da Latina ambição, riquezas, pompa
Roubado haviam insaciaveis, féros
De Constantino á côrte. Espessa nuvem
De negros vicios, de perversos crimes
Pousou medonha sobre os tristes netos
Degenerados, vis d’um povo illustre.
Crestadas, sêcas pelo sôpro ardente
Da tyrannia atroz definham, morrem
Apesinhadas as virtudes candidas;
Ao cûmulo chegou desdita, opprobrio
Dos fados teus, ó Grecia. Eis ante as portas
Da famosa cidade, audaz, suberbo
Musulmano feroz, Mahomet se ostenta.
Monstros, que o sangue do mesquinho povo
Impios bebestes, ah! tremei, que é elle:
Austero açoite das celestes iras
Sobre vós descarrega a mão divina.
Bonzos, no centro aos claustros profanados
Embalde a frente d’horridas maldades
Carregada escondeis: lá vai, lá chega;
Sobre as aras d’um deus, a um deus, que ousastes,
Incençando-o, offender, lá vos immola.
Artes, sciencias, a guarida extrema,
Perdeste’-a em fim: voltai, fugí; que Hesperia
Os carinhosos braços vos estende.
Ei-las: oh! folga, venturosa Europa.
Lá cai a pouco e pouco em terra o throno
Da barbara ignorancia: as trevas do êrro
Vai accossando da verdade o faxo.
Arte divina, magica pintura,
Foragida tambem, thesouros, mimos
Vens espalhar na mui ditosa Italia.
Italia! oh! folga: Raphaeis ja pulam.

FIM DO CANTO PRIMEIRO

CANTO SEGUNDO

Mas eis, distinctos esquadrões formando,
As escholas assomam; reina entre ellas
Vivaz emulação, que gera os sabios:
Vão-lhe na frente os affamados chefes,
Que a patria honraram c’o pincel divino.
No bello antigo modelando as graças,
Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem,
A frente airosa sobre erguendo ás outras,
Vem tribu excelsa dos Romãos pintores.
Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia
Das attitudes, d’expressão, verdade,
De audaz composição, nobre elegancia,
O correcto desenho, e puro, e grave,
E quanto inspira Apollo ás almas grandes,
Em extasi sublime altas ideias.
É filho seu (que mais sobeja glória!)
Raphael, o divino, o mestre, o numen
Da moderna pintura, eterno brilho,
Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia;
Que, as barreiras transpondo á natureza,
Olhou de face a face a divindade,
E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre,
E aos d’arte amantes desejar com Pedro
Junto ao prodigio habitação ditosa.[1]
Julio o mestre imitou, foi digno d’elle:
Forte, ardida expressão lhe anima os traços,
Que ás proficuas lições dão glória e lustre.
Em cêrca aos muros da gentil Parthénope,
Onde aprimora a natureza os mimos,
E a voz do creador soou mais bella,
Onde, entre montes de sulphureas cinzas,
Umas sobre outras, as cidades jazem,
E a rôdo os d’atro fogo horridos rios
A poeticas ficções dão ser terrivel;
Alli, silencio eterno ergueu severo
Religiosa mansão; firmou-lhe as bases
Austera, descarnada penitencia.
Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen,
Vigoroso, expressivo Spanholeto,
Lá foste, e a assomos do pincel terrivel
Em longas vestes surgem, pulam, vivem
Fatidicos anciãos; ás portas velam
Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta.
E quando atroz, hypocrita veneno,
Lavrando a furto sob o sacco, e cinza,
Os muros profanou, que ergueu virtude,
Inda no mesto panno afflictos suam;
E a gloria do pintor fulge entre o crime.[2]
Fostes, como elle, heroes da arte divina,
Polidoro gentil, vivaz Fattore,
Saliente Caravaggio, que exprimiste,
Senão bella, fiel a natureza.
Nobre, altivo Cortona, quanto vivem
Scenas famosas da nascente Roma!
Nas mães trementes, pallidas filhinhas,
Ve como a mesma dôr redobra encantos!
E o fero aspeito dos Quirinos Martes,
Onde a furto da glória amor scintilla!
Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo
Prodigios de valor, extremos d’honra,
Prole Romana... Eis o universo em ferros.[3]
Amavel, terno Sacchi, a ti surriram
Do mago cinto de Erycina as graças;
Meigos, suaves dons te esparzem n’alma,
Que nos quadros gentis reflectem doces.
Belligero Cerquozzi avulta aos olhos
Brandir no panno, lampejar mil ferros,
E aos roucos sons da sanguinosa guerra,
Entre as phalanges baralhadas rôtas,
Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.[4]
Quam magos fulgem divinaes, sublimes,
Maratti encantador, facil Giordano,
Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma
Ingenhos tantos, insondaveis, grandes,
Por guerreiros tropheos, suberbos róstros,
Triumphos cem do ovante Capitolio,
Dais, se menos viril, menos heroico,
Ornamento gentil, belleza, encantos.
Ja de acurvados reis não brilha o fasto
Da escravidão contentes; não se antolha
Em cada senador um nume, um Jove.
Ja nas praças, nos templos não campeiam
Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro,
Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo,
Da barbara ignorancia ás mãos cederam.
Cheio de Livio o viajante absorto
Não ve do Capitolio a frente erguida
Torreada avultar com ferros cento,
Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno;
Da inesp’rada mudança pasma, e geme,
E no centro de Roma a Roma busca.
Porem, se amiga mão lhe guia os passos,
Se o Vaticano e mil prodigios nota,
Que do antigo explendor moderam fama;
Então Roma conhece, então venera
Nobres resquicios de gloriosos évos.
Taes da moderna Roma os filhos iam
Por travesso menino conduzidos;
E d’altiva belleza ornada a frente,
A magestosa, Florentina eschola
De perto os segue: no atrevido ensejo
Parece disputar-lhe o grau supremo.
Co’a sublime expressão, desenho ardido,
Gigantesca maneira, audaz, mas bella,
Se antolha ennobrecer a natureza.
Brandas graças d’amor, ternura, encantos
Feroz desdenha; só lhe avulta á mente
O nobre, a pompa da ideal grandeza.
Não foi sobre o Synai mais formidavel,
Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel;
Nem lá no extremo, derradeiro dia
Julgamento final será mais horrido.
C’o deus, que o peito vos perturba, anceia,
Mais pavorosas não rugís, Sibylas.
Da mão nervosa cada traço é raio,
Que espanta os olhos, que deslumbra a mente;
Que enxofrado clarão, medonhas larvas
Em todo o horror do Averno ostenta horrivel;
Que, se um deus pinta, é do castigo o numen,
Que em longa geração pune um só crime,
O deus, que no deserto, entre os relampagos,
Entre o rouco estampido das trombetas,
Pela voz do trovão legisla ao mundo.
Eis, desdobrando hydraulicos segredos,
E as mechanicas leis com sabia dextra
Movendo a seu sabor, á glória sua,
Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno,
Seu correcto, purissimo desenho,
Engenhoso compor o eleva aos astros,
Aos astros, onde fôra em vôo ardido
Os pinceis escolher, buscar as tintas,
Com que d’ultima ceia debuxára
Amor, transportes, mysteriosas scenas.
Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro;
E de grado a razão cede ao mysterio.
Côres roubando á natureza, e mimos,
Bello como ella, o inimitavel Porta
Ao gelado silencio de ermo claustro
Chamou das nove irmans o chôro arguto.
Urbino o conheceu; e o sceptro augusto
Curvou ante elle; e, confundindo os raios,
Os dous d’alma pintura astros brilhantes,
Sem negro eclypse, scintillaram juntos.
Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando;
Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma,
Que ao nobre assômo do pincel nervoso,
C’o doce encanto das mimosas tintas
Fizeste a Raphael, a Buonarrotti
D’arte a coroa estremecer na frente.
Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto
Na Italia renovou macio Allori;
E as meigas cores do pincel Lombardo
Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio.
Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho
Seguir-vos todos, divinaes pintores:
Segura a fama vossa alteia a frente,
E o vate ao longe vos contempla os vôos.
Gentil Bolonha, que na Europa barbara
O faxo das sciencias accendeste,
Que o Gothico stupor tiraste ás artes,
E as cinzas da virtude apesinhadas
Por sanctos crimes de sagrados monstros
C’um Benedicto consolaste em Roma,
Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos,
Numerosa familia, antiga e nobre,
Que o mel das graças delibando férvida
Em quantas flores produzíra Apollo,
Nobre desenho modelou no antigo,
Á natura usurpou vivaz belleza,
E o mago, o puro dos gentis contornos,
A verdade, a expressão, o rico d’ordem,
E o colorido inimitavel, bello,
Que emparelha com a arte a natureza.
Assim brilhou divino o gran Corregio,
Assim Francia gentil, assim Mantegna,
E Bolognese vigoroso, e forte;
E tu, que o terno amor, e seus encantos,
Simplices graças da natura virgem,
Da innocencia infantil o mimo, os jogos,
As singelas beldades exprimiste
No mavioso pincel, mavioso Albano.
Nem deslembre de Guido a fertil mente,
Talento universal, vago, mas bello...
C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza,
Ve d’Agnese gentil a ardua constancia
Como os p’rigos desdenha, e ve risonha
Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte.
Ferino aspeito dos ministros barbaros,
Da augusta religião viril triumpho
Aos engolfados olhos se apresenta,
E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate,
Um prodigio a prodigios amontoa.
Ve Guerccino tambem, que ora nervoso,
Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora,
Mas sempre encantador, em cada rasgo
C’um portento de mais a arte enriquece.
Qual vira a Palestina o pae dos crentes[5]
De fe, de submissão dar nobre exemplo;
Tal vive no pincel, tal inda avulta
Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito.
Misero velho! desgraçado infante!
Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna
Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida,
Unica esp’rança de cançados annos,
De mui doces promessas? Como... ai triste!
Oh! como voltará sem elle á tenda?
Com que olhos fitará maternos olhos?
Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra
Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena;
Um deus é pae tambem: suspende o crime:
São leis da natureza as leis divinas;
Em premio da tua fe recebe o filho.
Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto;
Eis triplice ornamento á patria, ao mundo,
Doutos Caraccis, que o divino ingenho,
Ou co’a dextra gentil ornando a Italia,
Ou dando á juventude almos preceitos
Da arte formosa, perpetuando-a aos évos,
Nova, estremada lhe augmentáram glória.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] A transfiguração de Raphael.