[2] Quadros dos prophetas por Spanholeto, na Cartucha de Napoles.
[3] O roubo das Sabinas por Cortona.
[4] Pintor de batalhas.
[5] O sacrificio de Isach, quadro famoso de Guerccino.
FIM DO CANTO SEGUNDO
CANTO TERCEIRO
Musa, deixemos a mansão terrestre,
Sobre o infido elemento estende os vôos.
Eis sobre as ondas c’o pincel divino
Maga pintura, legislando ás vagas,
Enfreia as iras de Neptuno indomito.
Ve d’Adria o gôlpho tempestuoso, e fero
Á voz da liberdade agrilhoado.
Surge do seio das domadas aguas
A cidade gentil: pasmou de ve-la,
E corou de vergonha a natureza.
E a mão do creador, ao ver confusos,
Baralhados antigos elementos,
Se ao homem, que os trocou, não dera a vida,
Quasi, quasi um rival temêra nelle.
Alli, fugindo aos clamorosos brados,
Ao jugo, á servidão da tyrannia,
Homens, poucos, mas homens, começaram
Com ância a defender sacros direitos.
Emporio foi depois do rico Oriente,
E do alado leão tremeu gran tempo
O atrevido colosso Mussulmano.
Hoje (ideias de dor, lembrança amarga!)
Da poppa olhando o navegante ao longe:
«Veneza aquella foi»—exclama, e geme;
E segue a esteira das cortadas ondas.
Veneza foi: compridas, longas eras
Foi a patria d’heroes, foi mãe de sabios;
E as dadivosas musas lhe outorgaram
Egregios filhos, que o talento, as vidas
Á formosa sciencia consagraram;
Que imitando fieis a natureza,
Olhos seduzem, e deleitam alma,
Que nos toques graciosos, na belleza
Da gentil invenção, doce magia
Do claro-escuro, rico invento d’arte,
Aos mais sabios pinceis não cedem nada.
Deusa, acode á avidez, que o vate enleia,
Fere nas cordas da estremada lyra
Dos famosos varões o nome e os dotes:
Dize a Ticiano, dize quaes natura
Lhe entornou dadivosa encantos simples,
Que, ou arte ignoram, ou subtis a escondem;
Ja d’humanas feições transsumpto exacto,
Ja co’as nativas côres exprimindo
No ingenhoso pincel tudo o que existe.
Adriades gentís, oh! vinde, as frentes
Coroadas de dor, na campa avara
Humido pranto derramar saudoso!
Ai do triste mancebo! o fado iniquo,
Só por chora-lo, o concedêra ao mundo!
Oh! com quanta expressão, nobre altiveza
Castel-franco brilhou, fulgiu mais que homem!
E tam breve lhe deu a sorte a vida!
E no fuso cruel a Parca dura
Um fio tam gentil fiou tam curto!
Oh! suspendei as lagrimas formosas:
Longa carreira os ceos marcaram próvidos
Aos dous Bellinis, venerandos chefes
Da nomeada eschola; á glória vossa
Vivem padrões eternos; Piombo illustre,
Que a fama ousou balancear d’Urbino;
Pordenone inventor, de quem Ticiano
Temeu roubadas as divinas côres;
Completo Palma, a quem mostrou natura
Sempre formoso o variado aspeito;
Animado Bassano verdadeiro;
Fertil, e vivo Tintoreto rapido;
E tu, Paulo gentil, delicias, mimo
Dos voluptuosos olhos da donzella;
(Mui grato enlêvo do insoffrido amante)
Qual Verona folgou com seu Catullo,
Tal comtigo: mil graças, mil encantos
Sem mysterio, sem véo te deu, lhe dera
Nua de pompas vans, a natureza:
Seu renome inda vive; e o teu com elle,
Emque lhe péze á inveja, e seus furores,
Hade eterno brilhar. Assim raivosas,
Frustradas gralhas invejosas grasnam
Á ave olympia de Jove; e entanto os vôos
Ella ao sol remontando, as mofa, e burla.
Porem mais longe da rinhosa Hesperia
Voltemos a attenção: ve como em Flandres,
Scena outr’ora infeliz da glória Franca,
Da Cypria deusa demandando a estancia
Vai turba immensa dos rivaes d’Italia.
As graças naturaes, singellas, puras
Á porfia a accompanham: não se enfeita
Por suas mãos a simples natureza:
Em loução desalinho bella, e nua
Mimos lhe outorga, que ella só conhece,
Que a vós é dado só, magos pintores,
Com arte ignota do universo ao resto
No pincel exprimir fiel, divino.
Prodigios fallem de Van-Eick famoso,
Do correcto, vivaz, firme Duréro;
Dize-o por todos; se inda alguem no mundo
Ignora tanto, que te ignore os dotes;
Fertil, brilhante, verdadeiro Rubens.
Rubens! Oh nome! Ó filhas de Memoria,
Vós, que no Pindo entre o verdor mimoso
Lhe bafejastes divinal espirito,
Quando, librado sobre as azas d’ouro
De sublime, elevada allegoria,
Viu, pintou... Ah! fez mais: creou, deu vida
A chymericos entes, vãos, mas bellos,
Que o vivo imaginar lhe debuxara.
Quam doce, e meiga a enternecida Venus
Com suspiros, com ais, com ternos bejos
Tenta a furia applacar, retter nos braços
Gradivo impaciente! Olha do monstro
O torvo gesto, o faxo sanguinoso...
Ella!... a guerra cruel! a horrivel frente
Co’a máscara da glória esconde ao numen,
E o veneno lethal lhe infunde n’alma.
Lá baqueia de Jano o templo augusto;
As artes, as sciencias calca o monstro;
E a d’auradas espigas, rubros pomos
Gentil coroa á agricultura arranca.
Ternura, horror, assolação, belleza
Com portentosa mão juntaste, ó Rubens.[6]
Quam bello é na expressão Vaén correcto!
Hólbein sublime, vigoroso, nobre!
Van-Rin saliente, harmonioso, e doce!
Quam firme é Wanderwérff singello, e puro!
E tu, mimoso Van-Dernér, que em Gnido
Bebeste as graças, possuiste os risos.
Ah! ja cançada se me affrouxa a lyra:
Rouca, e sem voz mal associa ás cordas
Difficeis nomes de estremados mestres.
Um por tantos direi; e o nome illustre
Te baste, ó Flandria, a coroar-te a gloria:
O bello, o simples, verdadeiro, e grande,
Do mestre a obra maior, Vandick insigne.
Mas, qual ruido, que tumulto, ó musas,
Do Pindo a sacra paz impio disturba?
Quanto vivem!... Que heroes da patria raios!
Armas! guerra! o furor! o sangue! a morte!
Destrôço! horror! assolações! ruinas!
Eis dos Alpes franqueado o gêlo eterno;
Nada resiste: c’o rugido extremo
Baqueia exangue de Pyrene a fera.
Co’a Europeia ruina Africa nuta,
Asia treme; e nas praias de Colombo
A fugitiva liberdade apporta.
A longes terras se accolheu Minerva,
Sem rumo as artes desgrenhadas fogem,
A Roma de Catão, d’Augusto a Roma
Não é de Pio a effeminada côrte;
E em vez d’um Fabio tardador, d’um Quincio,
D’um Bruto, um Manlio; prostituta prole
No deshonrado Capitolio avulta.
Quem, bellezas d’Italia, hade amparar-vos?
Quem!... Animos cobrai; volvei sem medo
Artes, sciencias: já no Sena ovante
O proprio vencedor no seio amigo
Vos accolhe, e accarinha, e no alto alcaçar
Augusto solio perenal vos ergue.
No Sena ovante (oh do porvir assombro!)
Em quanto os filhos seus, terror do mundo,
Raios desferem, que o universo atterram;
Renasce mais gentil, vive mais fúlgido
O sec’lo de Luiz; succede á velha,
Á pedante Sorbona, almo Instituto.
Eis novos Raphaeis, arte divina!
Não lamentes Poussin, Gallia ditosa,
De Mignard, e Blanchard divinas côres,
De Lebrun a expressão, fieis costumes,
Paizagens de Lorrain, maga ternura
Do voluptuoso, encantador Santerre,
Grandioso stylo do vivaz Subleyras:
Teus modernos heroes excedem tudo;
E ao seio da opulencia amamentados,
Á voz da glória redobrando exforços,
Talvez irão com denodado arrôjo
Do solio d’arte derribar a Italia.
Se, entre barbaras mãos gemendo outr’ora,
Devêste a Belisario a vida, ó Roma;
Se das furias crueis d’horrida guerra
O juramento te isentou d’Horacios;
Se quanto foste em gloriosas quadras
A um necessario roubo, á paz, que o segue,
Ao ferro audaz de Romulo devêste;[7]
Treme d’elles agora, treme, ó Roma;
Que no heroico pincel David illustre
As cinzas lhe animou; marcham por elle
Tua fama a conquistar, roubar teus louros:
De Urbino, e Buonarrotti o throno prostram;
Eis campeia David!—Não longe d’elle
O terno Girodet, suave, e brando,
Que, do Meschacebeu vingando as margens,
C’o vate insigne emparelhou nos vôos,
E na pasmada Europa ergueu d’Americo
As pomposas florestas, e a nobreza,
Ornamento feroz d’um mundo virgem:
Que os encantos d’amor, e os seus furores,
O podêr da virtude, e os seus exforços
Dignos d’elle exprimiu, e fez de novo
Olhos sensiveis afogar em pranto.
Eis á voz de Gérard das campas rompem
Extinctas gerações: Saturno as azas
Indignado encolheu, e a prêsa antiga
Viu roubar-lh’a o pincel, quebrar-lhe os éllos
Da impreterivel, perenal cadeia.
Ruge fremente o mar, bramindo, e ronca
Nas oucas rocas, nas quebradas fragas
Do tormentorio mar... Lá se ergue ingente,
E immenso troa o colossal gigante.
Treme d’entôrno o mar, e a terra, e o mundo;
E a voz, que os polos com fragor desloca,
Pela primeira vez á gente Lusa
Pallida imprime a sensação do medo.
Só impavido, um só, Vasco lhe arrosta:
Pasma a ousadia d’um mortal a um nume.