O objecto principal deste ensaio é a historia da pintura. A maior parte do meu poema será inintelligivel sem elle a todo o leitor, que não tiver feito um comprido estudo nesta materia. Menos porem bastaria talvez para a intelligencia do opusculo: fui mais longo e extenso, principalmente na historia da pintura portugueza, porque julguei util dar á minha nação uma coisa que ella não tinha, a biographia critica dos seus pintores. Sobejo e enfadonho trabalho me deu: oxalá que aproveite! Bem pago fico, se, entre todos os leitores, deparar com dous, em quem faça impressão o amor de boas-artes, e da patria, que toda a obra respira.
CAPITULO I
Dos Pintores Gregos e Romanos
O numero dos pintores Gregos e ainda Romanos, cujos nomes chegaram até nós, é grande, mas o d’aquelles, cujas obras ou maneiras conhecemos, é bem diminuto. O respeito da antiguidade com tudo no-los faz admirar, por ventura mais, do que o seu merecimento exige. Os quadros modernamente descobertos nas cinzas do Herculano e Pompeia, alguns frescos conservados nas ruinas de Roma e outras cidades de Italia tem subejamente mostrado aos entendedores imparciaes, que a pintura dos antigos, ainda mesmo no seu maior auge, não póde soffrer comparação com o menor quadro dos Rafaelos, dos Corregios, dos Caraccis, nem mesmo d’outros pintores de segunda ordem das modernas escholas. Duas coisas principalmente faltavam aos antigos pintores. Uma, as tintas, cujas bellas composições, descobertas em mui posteriores seculos, absolutamente ignoravam; não conhecendo, senão as terras de côr, e os metaes calcinados; faltando-lhes aquellas côres, que dão o tom medio, entre a luz e a sombra, que formam o matizado e assombrado, e exprimem a natureza tal qual ella é, e com toda a sua formosura: outra, o conhecimento das leis da perspectiva, como bem mostram todas as suas obras, que nos restam: defeito este, que salta aos olhos, e de impossivel disfarce. Só aquelle cego fanatismo, que faz cançar os pedantes no estudo do Hebraico e Syriaco e d’outras inuteis antigualhas, póde achar nos quadros Gregos e Romanos bellezas, não digo superiores, mas iguaes ás das magnificas pinturas do bom tempo das modernas escholas, e ainda mesmo das de hoje; com quanto a pintura, á excepção da franceza, bastante se approxima da decadencia pelo espirito servil, mania das copias e mal entendida imitação.
CAPITULO II
Restauração da pintura na Italia
Cimabúe, nascido em 1230,[16] e morto em 1300, é conhecido em toda a Europa pelo honroso titulo de restaurador da pintura. Ouviu os principios de sua arte d’alguns pintores Gregos vindos a Florença, que ainda conservavam restos do bom stylo da nação: aperfeiçoou-se depois com o estudo, e imitação dos poucos modelos antigos, que então appareciam na Italia. Preciosas descobertas, que se foram pelo andar dos tempos fazendo, pouco a pouco desterraram a barbaridade, que, entre as outras boas-artes, tinha tambem sepultado a pintura. As estatuas, os quadros, os relevos arrancados das cinzas e ruinas dos famosos monumentos romanos, quantos mestres, quantos primores d’arte, d’architectura, scultura e pintura não deram á Europa! Miguel Angelo confessava dever toda a sua sciencia ao assiduo estudo, que por toda a vida fizera no tronco[17] de Hercules, no grupo[18] de Laocoon, no Apollo[19] do Belveder, e n’outros modelos da bella antiguidade.
Com quanto porem a pintura e mais boas-artes não possam propriamente dizer-se restauradas antes do seculo de Leão X, que foi o de Raphael, de Miguel Angelo, de Leonardo da Vinci, etc.; Cimabúe comtudo foi o pae da pintura moderna; suas obras espalhadas pela Italia renovaram o bom gôsto, e abriram os alicerces, sobre que se havia depois formar o grande edificio das escholas Florentina, Romana, etc.
Todavia, em abono da verdade devemos confessar, que, posto que Cimabúe possua com razão o titulo de restaurador da pintura; outros antes d’elle houve, que se o não excedêram, lhe não foram ao menos inferiores. De Guido de Senna, pintor do XIII seculo existe em uma igreja de sua patria um quadro da Virgem, tão bom como os melhores de Cimabúe: o seu desenho é de bom stylo, e ainda fresco de côres, apezar de ser feito no principio do mesmo seculo, como indica a inscripção, que se le por baixo.
Me Guido de Sennis
Diebus depinxit amenis;
Quem Christus lenis
Nullis nolit agere penis.
A. D. MCCXXI.
Ora, a data deste quadro é anterior ao nascimento de Cimabúe, affirmado por uns em 1230, e por outros (como Pruneti) em 1240; e por isso os Sennenses querem disputar a Cimabúe o titulo, que a elle e sua patria, Florença, tanto ennobrece. Mas debalde; porque de Guido não se conhece outra obra; e de Cimabúe existem ainda muitas, cuja nomeada o faz hoje mesmo celebre e conhecido, e que n’aquelle tempo serviam de modelo aos seus discipulos.