A poesia (attrevi-me a pensá-lo assim, e se a novidade não agradar nem por isso me desdigo) é uma só: aos poetas pintores, seus primeiros filhos é dado tratta-la viva: os poetas-versejadores só com o véo do mysterio coberta a podem ver e seguir. A poesia animada da pintura exprime a natureza toda; a dos versos porem, menos viva e exacta, falha em muita parte na expressão de suas bellezas. Que poeta nos poderia dar uma ideia de Romulo como David no seu quadro das Sabinas? Que versos nos poderiam fazer imaginar a Divindade como a transfiguração de Raphael? Que poema nos faria conceber a magestade d’um Deus Creador dando fórma ao cáhos, e ser ao universo, como a pintura de Miguel Angelo?

Estas reflexões sobre o parallelo das duas especies de poesia são minhas; por taes as dou, e me encarrego do mal, ou bem, que d’ellas se pensar. Por ventura não foi este o conceito dos antigos; mas a arte mui atrazada entre elles não estava em proporção da nossa; os gregos não tinham, como nós, Homeros em pintura. Immensas vantagens, como já notamos, lhes levam os modernos pintores; a que de mais accresce o nobre invento da gravura, que, (bem como a imprensa nos facilita o trato dos mais antigos poetas do mundo) transmitte á posteridade e nações remotas os esmeros da pintura, e ainda da scultura. Os nossos Appelles não podem temer o ser conhecidos pelos vindouros só de nome e fama, como o é por nós o dos antigos; a estampa lhes assegura o conhecimento de facto no mais remoto porvir, e mais longes climas.

Mui fertil foi a eschola Romana; grande é o numero dos seus pintores: daremos de cada um d’elles uma brevissima, porem exacta noticia: desta maneira terá a mocidade applicada, como em synopse, e sem o trabalho enfadonho de revolver muitos e antigos cartapacios, a historia completa desta e das outras escholas, em que seguiremos o mesmo methodo.

Seculo XVI

Rafaelo Sanzio d’Urbino, nascido em 1483, morto em 1520, facilmente julgado o principe dos pintores: nenhum (se não for o moderno francez, Mr. David) poderá rivaliza-lo. O brilhante colorido de Ticiano, a belleza das tintas de Corregio, a gigantesca altivez de Miguel Angelo não fazem a menor sombra á gloria do grande Romano. Raphael levou a sua arte ao grau de perfeição, de que é capaz a humanidade. Pertender dar uma ideia d’elle é tentar o impossivel: o estudo das suas producções é o unico meio de o conhecer. Elle ainda vive repartido por seus quadros, um dos mais bellos e ricos ornamentos das cidades que os possuem. Digam-o os templos de Roma, as casas dos principes, o Vaticano (onde existe a sua famosa Biblia), e sobre tudo a egreja de S. Pietro in monte situada no Janiculo; onde se conserva o primeiro quadro do universo, a unica producção da arte, que excede a natureza, a maior honra do ingenho humano, a melhor obra de Raphael, a sua Transfiguração. Tal foi um dos primeiros homens do mundo, de quem (e com mais razão por ventura, do que Horacio dizia de si) podêmos asseverar, que não morreu todo: Non omnis moriar; ou como ja se disse em portuguez; O sabio não vai todo á sepultura. A belleza principal das suas obras é o desenho e attitudes.

Julio Romano (Giulio Pippi) n. 1492, m. 1546: foi discipulo de Raphael. Em suas obras, que principalmente se acham em Roma, se ve que o caracter d’este pintor era a fôrça e ardimento: o seu colorido é obscuro, mas o desenho admiravel.

João Francisco Penni (il Fattore) n. em 1488, m. em 1528; trabalhou quasi sempre debaixo das vistas, e pelos desenhos de Raphael, seu mestre. Suas obras principaes são as galerias do Vaticano.

Polidoro de Caravaggio n. 1495, m. 1543; foi bom colorista, correcto no desenho, nobre e fero nos ares de cabeça.

José Ribera, hespanhol, e por isso dito il Spagnoleto, nasc. em Valença em 1589, e m. em 1656. O seu caracter é o vigor e expressão: todas as figuras austeras e carregadas, prophetas, philosophos, tudo quanto exige um pincel forte e vigoroso, sahia de suas mãos, como das da natureza. Suas obras principaes existiam na cartuxa de Napoles; e entre ellas, a mais conhecida é a collecção dos prophetas.

Perrino del Vague Buonacorsi n. em 1500, m. em 1547; foi tão feliz imitador do stylo de Raphael, seu mestre, que muitos de seus quadros passam por d’elle.