E todavia ja nós tinhamos recobrado tão gloriosamente nossa independencia, ja o nome portuguez tornára a ser honra e nobreza, e ainda essa lepra castelhana lavrava.
Dous grandes escriptores, ambos prosistas e ambos dignos de muito louvor, concorreram para a continuação d’este mal. Quem podia deixar de admirar Vieira? Quem não iria levado pela torrente de sua eloquencia? Quem resistiria aos impetos de arrebatamento de Jacinto Freire? O grande talento de ambos, a vasta erudição e desmedido ingenho de Vieira sobre tudo, fizeram grande damno á litteratura: sabiam, escreviam perfeitamente a lingua, tinham grande crédito na côrte, tractavam grandes assumptos, animava-os o nobre e sincero enthusiasmo da glória e liberdade nacional: tudo foi após elles; imitaram-lhes vicios e virtudes; como não distinguiam em Vieira o grande orador, o grande philosopho do gongorista affectado (quando o era) não estremavam em Jacintho Freire o historiador, o panegyrista do declamador, do academico vão; ruim e bom seguiam. E como é mais facil imitar a affectação, que a naturalidade, as argucias de má arte, que as graças de boa natureza; os imitadores foram alem de seus typos no affectado, no mau d’elles, ficaram immenso aquém do que n’esses era bello e para imitar.
Nem o conde da Ericeira que traduziu a Arte poetica de Boileau e d’elle levou tão immerecidos e banaes elogios, tomou d’ella triaga bastante para se curar do veneno commum: e ainda assim melhor é sua frigida Henriqueida que os outros versos que por então se faziam em Portugal: porem o unico ôlho que o fez rei em terra de cegos, não lhe era bastante para ver e acertar com a vereda da posteridade. Ahi morreu no seu seculo e ahi jaz pela poeira de alguma livraria de bibliomanico.
As academias de historia, de litteratura do tempo de D. João V, as associações ridiculas de todos os nomes e descripções que então se formaram, a mais e mais empeioraram o mal, que progressivamente cresceu até o ministerio do marquez de Pombal.
VI
Quinta epocha: restauração das lettras em Portugal.—Meio do seculo XVIII até o fim
A civilisação e as luzes que a geram, tinham-se estendido do sul para o norte. A corrupção que após ellas vem em seu marcado periodo, as fôra apagando, ou ennevoando ao menos, na mesma direcção. De sorte que pelos fins do XVII seculo o meio-dia, que havia sido berço da illustração da Europa, quasi se ennoitava das trevas da ignorancia, as quaes pareciam voltar como em reacção para o ponto d’onde partíra a primeira acção da luz que as dissipára.
O norte, que mais tarde se havia allumiado, progredia no emtanto: as boas letras, as artes, as sciencias floreciam na Inglaterra e por quasi toda a Allemanha. Milton, Descartes, Newton e Linneu brilharam ao septentrião da Europa; e nós meridionaes estudavamos as cathegorias e as summas, aguçavamos distincções, alambicavamos conceitos, retorciamos a phrase no discurso, torciamos a razão no pensamento.
Porem a face do mundo estava começada a mudar: as antigas barreiras que a politica e os preconceitos erguiam entre povo e povo quasi desappareciam; as mutuas necessidades, e até o mesmo luxo, faziam quasi indispensavel precisão as permutações do commércio; e o commércio fraternizou as nações.
Reciprocamente se estudaram as linguas, generalizou-se esse estudo: então é que exactamente os sabios começaram a ser de todos os paizes: os bons livros pertenceram a todas as linguas; e verdadeiramente se formou dentro de todos os estados um estado que (sem os inconvenientes do status in statu dos ultramontanos) com justiça e exacção obteve e mereceu o nome de republica das lettras, a qual é uma, universal, e sem perigo de schisma.
Os effeitos d’esta alteração no modo de existir do universo foram sensiveis: as luzes não so reverteram (sem retrogradar) do norte para o sul, mas se diffundiram geraes. A França viu então o seculo de Luiz XIV; Italia deixou sancto Thomaz e os concetti por melhor philosophia e melhor gosto; Hespanha teve o seu Carlos III; e Portugal no reinado d’el-rei D. José subiu á altura dos outros povos, senão é que em muitas cousas acima.