Porem os symptomas do Gongorismo e Marinismo se manifestavam já em Italia e Castella; não perfeitos ainda, não no auge a que os levaram os dous poetas, aliás ingenhosos, cujo nome vieram a tomar; mas já assim mesmo a poesia moderna estava toda gafa d’essa lepra de suberba requintada.

Vasco Mousinho de Quevedo, que sem disputar é depois de Camões, nosso primeiro epico, ahi tem já em toda a nobreza de seus versos a quebra de bastardia d’esse defeito, que todavia é n’elle ainda raro. Mas que bellezas tem esse tão mal avaliado Affonso Africano, a que a cegueira e o mau gosto tem querido preferir a quixotica e sesquipedal Ulyssea, a hyperborea e campanuda Malaca! Não é regular o poema, não é um todo perfeito; o maravilhoso é frio, e a acção toda não mui bem deduzida; mas que riquissimos episodios a enfeitam! A descripção de Zara, o jardim incantado onde aporta o principe D. João, e alguns outros trechos são cunhados com o sêllo da verdadeira poesia, e animados da luz que só dá o ingenho. Quanto ao stylo, é com poucas excepções fluido e elegante; custa a achar em tão longo poema uma rhyma forçada ou má: e a mesma linguagem, supposto decline um tanto da primeira pureza, é ainda de boa lei e valiosos quilates.

D’ésta epocha é tambem Rodrigues Lobo, cujo grande logar como prosista não é aqui proprio de examinar: de seu merecimento poetico a commum opinião tem com justiça decidido dando-lhe um dos primeiros (eu quizera o primeiro) logar entre os bucolicos antigos; e outro mui differente e inferior entre os epicos. E certo, o Condestabre, apezar de muitos e bons pedaços descriptivos, é frouxa e morna composição. Que differente era a frauta que ia soando pelas margens do Lis, a dulcissima frauta de Lobo, quando comparada com a tuba heroica, para cuja altivez lhe fallecem natureza e arte! seus pastores são verdadeiros pastores, sua linguagem é verdadeira do campo, não lhes sahem pelos golpes do pellico as alfaias da cidade, tão mal encubertas pelos outros bucolicos, os quaes, sem excepção do proprio Camões, todos peccam por mui sabidos e lettrados, por discretos e galantes mais que sóem ser aldeãos e pastores.

Alem d’isso ha derramados pela Primavera, Pastor peregrino, etc., pedaços lyricos de summa belleza, romances excellentes e verdadeiramente dignos de admiração e estudo.

Tinhamos perdido a independencia; perdemos logo o espirito nacional, o tymbre, o amor patrio (que amor da patria poderá haver em quem patria já não tem!); a lisonja servil, a adulação infame levou nossos deshonrados avós a desprezar seu proprio riquissimo e tão suave idioma, para escrever no guttural Castelhano, preferindo os sonoros helenismos do portuguez ás aspiradas aravias da lingua dos tyrannos. Vergonha que só tem par nas derradeiras vergonhas com que nos enxovalharam a lingua e a fama os tarellos, francelhos, gallici-parlas e toda a caterva dos gallo-manos!

Em Castelhano escreviam já esses degenerados portuguezes: mas pouco importava que o fizessem, que n’isso fraca perda tivemos nós: de toda essa çafra de versos castelhano-portuguezes pouco ou nada ha que espremer.

D’ésta commum baixeza se alevantou o honrado e douto magistrado Gabriel Pereira de Castro, que depois de ter aberto na jurisprudencia um caminho novo e n’aquelle tempo tão difficil por grandes verdades então perigosas, tomou ousado a trombeta de Homero, e não se arrojou a menos que a competir ao mesmo tempo com a Iliada e Odyssea; que tanto abraça o assumpto de seu poema. Grande é a concepção, bem distribuidas as partes, regularissimo o todo, regular e bella a acção, bem intendidos os episodios; mas o stylo... o stylo é, prototypo da Phenix-renascida, o requinte do gongorismo, cujo patriarcha foi entre nós, pervertendo-nos, á sombra de sua grande fama e brilhante ingenho, todo o resto escasso que de gôsto tinhamos ainda, intrincando a poesia (senão que tambem a prosa por mau exemplo) n’um dedalo inextricavel de conceitos, de argucias, de exagerações, de affectada sublimidade, falsa e van grandeza; com que de todo veio a terra a poesia nacional, e acabou a grande eschola de Camões e Ferreira, que tantos e tamanhos alumnos havia produzido. E suppunha esse homem vaidoso ter sobrepujado com as queixotadas da sua Ulyssea as naturaes bellezas dos divinos Lusiadas!

Quasi o mesmo errado trilho, mas que menos brilhante e com inferior ingenho, seguiu Sá de Menezes na Malaca. Esse poema, que tanto tem engrandecido o mau gôsto, é na minha opinião um dos derradeiros titulos de glória da litteratura portugueza. E todavia é bem regular, bem concebido, e a espaços se lhe encontram grandes rasgos de gentileza poetica. A falla de Asmodeu no conselho infernal faz lembrar muito a de Lucifer em Milton. Porem quando agitado o poeta do genio mau que avexava e endemoninhava os poetas d’então, começa a guindar-se, a transpor os derradeiros limites da naturalidade; esquece todo o deleite que algumas estancias mais descuidadas nos haviam causado, e é forçoso desemparar a dura tarefa de tão incommoda leitura, porque verdadeiramente incommoda e cança tal stylo, tal phrase, tanto hyperbolico luxo e destemperado alambicar.

V
Quarta epocha: idade de ferro; aniquila-se a litteratura, corrompe-se inteiramente a lingua.—Fins do XVII, até meados do XVIII sec.

Mas ainda estes tinham sua nobreza, havia não sei que grande entre todas essas nuvens de talco; talvez lhes viesse dos assumptos: porém seus discipulos que ainda quizeram ir ávante, deram em fazer silvas, acrosticos, e engendraram todos os outros monstros (originarios, segundo Diniz, do paiz das bagatellas) e distillando mais e mais as quintas essencias dos conceitos, tanto torceram e retorceram o ja delgado fio poetico, que de todo o quebraram. So Manoel da Veiga o atou momentaneamente em uma ou duas lyras da Laura de Amphriso. Logo tornou a estalar: e per ahi andaram as pobres musas portuguezas jogando as cabras-cegas pelas eclogas de Poliphemo e Galatea, pelos romances hendecasyllabos, e per todos os outros escondrijos do gosto depravado, de que boas amostas se conservam no precioso tombo da Phenix-renascida e alguns outros hoje ignorados livros d’essa triste data.