Contemporaneo de Camões e ousado tambem como elle a encetar a carreira epica foi Jeronimo Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel monumento litterario, e que de certo se teve algum exemplar foi a Italia do Trissino, é uma fria narração, em que ha bellas ideias áquem além, muita riqueza de linguagem, pouca de poesia, e pelo geral maus versos. E comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em data) poeta descriptivo; e creou elle acaso esse genero de que tanto blasonam hoje inglezes, allemães, e até francezes, e que todavia nós tinhamos seculos antes d’elles. Ja no Cêrco de Diu ha muitas boas descripções: mas no naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes.

Entre muito devaneio de imaginação e de mau gôsto, entre aquelles insipidos requebros de Pan e de Protheu apparece todavia a morte de D. Leonor que é um trecho da mais bella poesia, da mais fina sensibilidade que se tem composto.

De todos esses poetas que então floreceram é na minha opinião o menos poeta esse Pero d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade de Ferreira e Bernardes vem talvez o maior renome. Ainda assim tem algumas odes boas, simplicidade com elegancia por partes de suas composições: epigrammas, são alguns excellentes.

Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não tardou em perecer, o suave cantor do Lima que levado per D. Sebastião para testimunhar seus altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se com seu rei, e jazeu captivo em Africa. Pondo de parte a questão das eclogas (na qual de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a qual, ainda que propria do logar, é mui longa para os meus limites; Bernardes foi excellente poeta; e com quanto sua linguagem é pobre, e em geral pouco variadas suas composições; a suavidade de seu stylo, certa melancholia d’expressão que lh’o requebra e embrandece darão sempre a Bernardes um logar mui distincto na poesia portugueza.

Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa, já a glória portugueza estava offuscada; com ella foram (como sempre vão) as boas artes. Ainda brilham a espaços faíscas do grande luzeiro que se apagára; mas já não eram senão faíscas.

Ainda Luis Pereira deplora na Elegiada a ruina da patria, mas esse canto funebre é quasi o canto de cysne da poesia nacional, que parece querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda se mostra. Ha excellentes oitavas derramadas per esse poema, algumas descripções felizes, grandissima riqueza de linguagem; mas pouco mais.

Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado nos primeiros labyrinthos dos conceitos italianos mostra a visivel decadencia da poesia: já as musas que tão louçans, e ingenuamente bellas tinham folgado pelas varzeas do Tejo e do Mondego com Ferreira e Camões, apparecem affeitadas com arrebiques e côres falsas, como essas damas para quem se desbota a flor da idade e lhe querem ainda supprir o viço com emprestados ornamentos, gentilezas compradas, e postiças. E todavia ha na Lusitania transformada pedaços lyricos excellentes, e alguns bucolicos soffriveis. Assim elle nos dissesse mais do seu Oriente do que nos disse: assim houvesse enriquecido a litteratura com mais imagens de tantas que sua Asia lhe offerecia, e com que houvera additado a mãe patria. Onde o fez, n’aquella ecloga em que conta a historia de Saladino, é elle verdadeiramente poeta; e se d’ahi tirarem alguns trocadilhos que tinha apprendido em Italia, excellente e digno de imitar-se é o resto.

NOTAS DE RODAPÉ:

[37] A. Rib. dos Santos traduziu este soneto em portuguez e (cousa inexplicavel em tal homem!) o deu por seu.

IV
Terceira epocha litteraria; principia a corromper-se o gosto e a declinar a lingua.—Começo, até o fim do XVII sec.