São de admirar suas comedias, e são notavel monumento para a historia das artes pela feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem quanto até então se tinha escripto. Porem o theatro portuguez creado pela musa negligente e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes, carecia de reforma, mas não podia supportar uma revolução. As comedias de Sá de Miranda sem caracter nacional, mui classicas de mais não eram para reformá-lo: o mesmo direi, e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a algumas poucas mais que depois vieram. O effeito d’estas composições, aliás preciosas, foi funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão) do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo e melhora-lo: o publico preferia (e com razão tambem) o com que fôra creado, o que o interessava, o que o divertia, e antes queria rir com as grosserias dos autos populares, que bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte e correcções d’essas comedias, que tudo tinham, menos interesse, onde todo o spirito havia, menos o nacional.
Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido assumptos portuguezes, se houveram pintado os costumes nacionaes, e presentado ao publico, em vez de quadros italianos, um espelho em que se elle visse a si e aos seus usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico em que houveram reformado o theatro em vez de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda hoje em uma scena rica e abastada dos resultados d’esse impulso, quando não temos senão que chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas que mendigamos a estrangeiros pelo triste meio de traducções, que (as dramaticas sôbre tudo) nunca podem ser boas.
Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas eclogas bastante frias, varios sonetos geralmente de pouca monta. Um d’elles á morte de Leandro e Hero é excellente, mas castelhano, e por esse achaque o não incluí na escolha.[37]
Não posso deixar de querer mal a tam illustre portuguez pelo muito que escreveu n’essa lingua estranha; com que não só privou a natural do fructo de suas tarefas, mas fez maior damno ainda com o exemplo que abriu; exemplo funesto que nos cerceou a litteratura, que nos defraudou d’uma Diana de Monte-maior, de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia perdendo a lingua.
Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater esse mal em sua origem: ei-lo ahi esse portuguez verdadeiro, ardente amador da lingua, clamando a todos, pugnando contra todos os que não prezavam e aditavam o patrio idioma com as producções do ingenho e das artes. O profundo conhecimento dos classicos gregos e latinos, o finissimo gosto que em seu estudo tinha adquirido, a felicidade com que sempre os imitou, a pureza da phrase, as riquezas com que adornou a lingua deram aos versos de Ferreira grande popularidade entre os litteratos e cortezãos (que, ao aveço de hoje, as lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram determinadamente o genero classico entre nós.
Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na imitação dos antigos; copiou-os, não os imitou: e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu a litteratura, porque a avezou a esse hábito de copista; cancro que roe o espirito creador, alma e vida da poesia nacional. Tão cega foi esta imitação, que seus mesmos versos, aos quaes hoje ninguem defende da nota de asperos e duros (e muitos direi—errados) os fazia assim de proposito por querer usar das ellipses gregas e latinas, a que repugna a indole de nossa lingua, so toleraveis em certas vozes que na prosa mesma se pronunciam e escrevem no final com m ou sem elle. Este desagradavel defeito dos versos de Ferreira é principalmente sensivel nas dicções que teem final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos nasaes de ão, e muito mais quando n’elle é o accento predominante da palavra.
Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas ha bellezas muitas e mui grandes, mas espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada per si póde merecer o nome de bella. Porem das odes, ha d’ellas que são puramente horacianas, e se lhes fallece a elevação (que não era esse o genio de Ferreira) sobeja-lhe a graça, a elegancia e a adornada philosophia, que não agradam menos, nem de menos valor e merito são que os extasis pindaricos, ou os requebros anacreonticos. O que é sem duvida é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro imitador feliz de Horacio, e o primeiro dos modernos que pulsou a lyra classica. Das epistolas, ha algumas que podem pleitear em concisão e fino dizer com as boas do lyrico romano. Quanto á pureza da moral, ao nobre patriotismo, áquelle generoso sentimento da honrada liberdade de nossos avós, áquelle enthusiasmo da virtude; esse respira, mostra-se e resplandece em todas as suas obras.
Mas a verdadeira glória de Ferreira é a Castro, producção admiravel per si mesma, pelo tempo em que a escreveu, por todos os lados por que se considere. Não é ainda liquido entre os philologos se era possivel o ter visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que mui poucos annos antes da Castro appareceu: mas é sem a minima questão reconhecida a superioridade da tragedia portugueza á italiana: pasma como sem vêr um theatro, sem mais exemplares que os gregos e latinos, podesse Ferreira tratar tão delicadamente um tal assumpto em um genero desconhecido da antiguidade. É notavel a primeira scena da Castro, a scena d’el-rei e dos conselheiros no acto II., a do acto III. em que o côro traz a Castro as novas de sua cruel sentença, onde aquella pergunta de Ignez: «É morto o meu senhor, o meu infante?» rasgo de sublime, porém d’um sublime todo sensibilidade, ao qual nem o qu’il mourût de Corneille póde comparar-se; e finalmente os coros, que sem paixão são superiores a todos os exemplares da antiguidade, e não teem que invejar aos tão gabados da Athalia. Não dou a Castro por uma tragedia perfeita: ainda em relação ao seu tempo e aos conhecimentos da scena d’então tem ella defeitos: não haver uma scena em que se encontrem Pedro e Ignez, não haver algum esfôrço do infante para lhe valer, deixam a peça muito nua de acção, e lhe entibiam o interesse. A versificação (que todavia é de preferir aos versos sesquipedaes e himpados com que hoje está pervertida a scena portugueza) pécca geralmente por dura; mas essa mesma é por vezes bella; e para bons entendedores muito ha hi que estudar; e oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem bem a Castro, e apprendessem alli, pelo menos, naturalidade e verdade de expressão, que tanto lhes fallecem.
Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza quando um homem pouco conhecido dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras e valor, foi para tão longe da ingratissima patria despicar-se de seu desamor com a mais nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão, com que não entram as idades, e que conservará ainda o nome portuguez quando já elle houver desapparecido da terra. Muita erudição (pois sabia quanto se soube em seu tempo), ingenho dos que véem ao mundo de seculos a seculos se reúniram em Camões. Esse homem levantou a cabeça la das extremidades d’Asia, e viu tudo pequeno á roda de si, todos os poetas pigmeus, todos acanhados com as linguas modernas ainda mal perfeitas, escravos da imitação classica, incertos e entalados todos entre o cego respeito da antiguidade e as novas precisões que as novas ideias, que o novo estado do mundo requeria. Teve animo para conceber e força para executar um rasgado e necessario atrevimento de se abrir caminho novo, de crear emfim a poesia moderna, dar não só a Portugal, mas á Europa toda um grande exemplo, e constituir-se o Homero das linguas vivas.
Não me dá espaço o acanho de meus limites para dizer de Camões o que era indispensavel; antes a celebridade de seu nome me deixará parar aqui para dar logar a tractar de menos conhecidos nomes. Só direi que a influencia de Camões na nossa poesia, e em toda a litteratura portugueza foi tal que desde então té hoje ainda se não deixou de sentir, mesmo nas epochas em que mais desvairados teem andado nossos poetas com as empolas do gongorismo, ou mais lunaticos com os esfusiotes do elmanismo. Quasi que não houve genero de poesia que não tractasse: tem sonetos admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras) excellentes; mas principalmente de todas as poesias menores são o mais sublime e perfeito as canções, genero a que deu uma nobreza e elevação desconhecida mesmo em Petrarca: sirva de próva e exemplo aquella que começa—«Junto d’um sêcco duro e esteril monte.» Dos Lusiadas, de suas bellezas e defeitos, das controversias sobre umas e outros, está cheio o mundo litterario.