O proprio Gil-Vicente não deixa de ter seu comico sal, e entre muita extravagancia muita cousa boa. Bouterweck e Sismondi parece que escolheram o peior para citar; muito melhores cousas tem, particularmente nos autos, superiores sem comparação ás comedias. A soltura da phrase, e a falta de gôsto são os defeitos do seculo; o ingenho que d’ahi transparece é do homem grande e de todas epochas[36].
NOTAS DE RODAPÉ:
[34] Não no sentido de novellas, mas no que então se lhe dava.
[35] Commum tambem nos outros generos de poesia, onde quer que entra o descriptivo.
[36] Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, fructo de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto, e demonstrar o que aqui enuncio.
III
Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua desde os principios do XVI até os do XVII sec.
Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou visivelmente a fortuna portugueza: certo é que as artes progrediram, que a lingua se aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado ainda do impulso anterior e já não promettia longa dura. Assim succedeu. D. João III colheu os fructos do que D. Manuel havia semeado; mas de lavras suas, nem elle, nem seus successores viram colheita.
Uma cousa todavia que muita influencia teve sobre a lingua e litteratura portugueza e que a instituições de D. João III se deve, foi o cultivo das linguas classicas, que na reformação da universidade de Coimbra augmentou muito. Os modelos gregos e romanos foram então versados de todas as mãos, estudados, traduzidos, imitados. Aperfeiçoou-se a lingua, enriqueceu-se, adquiriu aquella solemnidade classica que a distingue de todas as outras vivas, seus periodos se arredondaram ao modo latino, suas vozes tomaram muito da euphonia grega; d’um e d’outro d’esses idiomas lhe vieram as muitas, e principalmente da grega, os muitos hyperbatos; com o que vai rica, livre e magestosa por todas as provincias da litteratura, que tem decorrido, não havendo ahi genero de composição, para o qual, ou por doce de mais como o Toscano, não seja propria,—ou por mui aspera e guindada como o Castelhano, se não adapte,—por curta como o Francez, não chegue,—por inflexivel e rispida como o Alemão e Inglez, se não amolde.
Claro é que a historia, a oratoria, todas as artes do discurso deviam de florescer com tal augmento. Com ellas todas medrou e cresceu a poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto; porêm desmereceu muito, demasiado na originalidade, no caracter proprio, que perdeu quasi todo, em a nacionalidade, que por mui pouco se lhe ia. Todos os deuses gregos tomaram posse do maravilhoso poetico, todas as imagens, todas as ideias; todas as allusões do tempo de Augusto occuparam as mais partes da poesia; e mui pouco ficou para o que era nacional, para o que já tinhamos, para o que podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente devia nascer de nossos usos, de nossas recordações, de nossa archeologia, do aspecto de nosso paiz, de nossas crenças populares, e emfim de nossa religião.
Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens de seu seculo, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as musas, e poetisou com a philosophia. Seu muito saber, sua experiencia, seu tracto affavel, e até a nobreza do seu nascimento, lhe deram indisputada superioridade a todos os escriptores d’aquelle tempo, dos quaes era ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda exerceu sobre todos os poetas d’aquella epocha a mesma especie de imperio que veio a ter Boileau em França, e mais modernamente Francisco Manuel entre nós. Introduziu na poesia os metros italianos, e os modos, versos e combinações de rhymas de Dante e Petrarca: e desd’ahi quasi se abandonaram inteiramente (excepto nas voltas e glosas) os nossos antigos versos de redondilha, e absolutamente os de arte maior e menor, que ainda assim mui proprios são para certos assumptos, segundo com feliz exemplo no-lo mostraram antigos e modernos poetas. Nem o mesmo Sá de Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas a pureza, a correcção, a naturalidade e sublime simplicidade de suas redondilhas nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi unico titulo de glória.