Este ar de familia enganou os estrangeiros, que sem mais profundar, decidiram logo, que o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque de decidir afoitamente de tudo é velho, sobre tudo entre francezes, que são o povo do mundo entre o qual (por philaucia de certo) menos conhecimento ha das alheias cousas.

Sem dúvida é que a lingua portugueza começou com seus trovadores, unicos no meio do estrepido das armas que algum tal qual cultivo lhe podiam dar; e provavel é que assim fosse com pouco melhoramento até os tempos d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de seu reinado protegeu e animou as lettras, que elle proprio cultivou tambem.

II
Primeira epocha litteraria; fins do XIII até os principios do XVI sec.

D. João I o eleito do povo, e o mais nacional de todos os nossos reis, deu ao idioma patrio valente impulso, mandando usar d’elle em todos os actos e instrumentos publicos, que até então se fazim em Latim. Foi esta lei carta de alforria e de cidade para a lingua que atélli vivera escrava da dominação latina, a qual sobrevivera não só ao imperio romano, mas a tantas conquistas e reconquistas de tam desvairados povos.

Aqui se deve pôr a data da verdadeira aurora das lettras em Portugal, que por singular phenomeno pouco visto entre outros povos, raiou ao mesmo tempo com a das sciencias; por maneira que quando o romantico alaúde de nossas musas começava a dar mais afinados sons, e a subir mais alto que o atélli conhecido, as sciencias e as artes cresciam a ponto de espantar a Europa, mudar a face do mundo, e alterar o systema do universo.

Desde então até á morte d’el-rei D. Manuel, tudo foi crescer em Portugal; artes, sciencias, commércio, riqueza, virtudes, espirito nacional.

Muitas foram as producções de nossa litteratura n’aquelle seculo de glória em que Gil-Vicente abriu os fundamentos ao theatro das linguas vivas, Bernardim Ribeiro puliu e adereçou com alguns mimos da antiguidade o genero inculto dos romances[34] e seguiu (quasi o segundo) o caminho encetado pelo nosso Vasco de Lobeira nas composições romanescas; e ao cabo mostrou aos rusticos pastores do Tejo alguns dos suaves modos da frauta de Sicilia que nenhuma lingua viva até então ouvira soar.

A natural suavidade do idioma portuguez, a melancholia saudosa de seus numeros nos levaram á cultura d’este genero pastoril, em que raro poeta nosso deixou de escrever, quasi todos bem, porque a lingua os ajudava; nenhum perfeitamente, porque (inda mal) deram ás cegas em imitar Sannazaro, depois Boscan e Garcilasso, e copiaram pouco do vivo da natureza, que tam bella, tam rica, tam variada se lhes presentava por todas as quatro partes de que em breve constou o mundo portuguez, e das quaes todas ou assumpto ou logar de scena tiraram nossos bucolicos. Nem d’este geral defeito[35] (o maximo que por ventura se lhes nota) póde fazer-se excepção, senão fôr alguma rara em favor de Camões e de Rodrigues Lobo. O Tejo, o Mondego, os montes, os sitios conhecidos de nosso paiz e dos que nos deu a conquista, figuram em seus poemas; porêm raro se vê descripção que recorde alguns d’esses sitios que já vimos, que nos lembre os costumes, as usanças, os preconceitos mesmos populares; que d’ahi vem á poesia o aspecto e feições nacionaes, que são sua maior belleza.

Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original em sua simplicidade, o que lhe falta de sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e n’uma ingenua ternura que faz suspirar de saudade, d’aquella saudade cujo poeta foi, cujos suaves tormentos tam longo padeceu, e tam bem pintou.

Foi seu contemporaneo Gil-Vicente fundador do theatro moderno, de cujas obras imitaram os Castelhanos; e d’ellas se espalhou pela Europa o mau e o bom d’essa irregular e caprichosa scena, que ainda assim suas bellezas tem.