NOTAS DE RODAPÉ:
[33] Muito tempo hesitei se daria logar n’esta collecção a um poeta (hoje morto) em quem de certo houve algum ingenho, mas que ignorou e desprezou a tal ponto a lingua, tam cynicamente violou o decoro do stylo, as mais indispensaveis regras do gôsto e da boa razão, que seus poemas são uma sentina de gallicismos, e um apontoado de termos baixos, de expressões que não usa gente de bem, de construcções barbaras, de versos prosaicos, semeados áquem além de uma ideia feliz, de um bom verso, de uma imagem poetica. Já se vê que esta descripção a ninguem quadra senão ao Santos e Silva. Cedi tambem n’este ponto á opinião que o considera mais do que elle vale, e escolhi o que me pareceu menos barbaro da tal excentrica Braziliada: e provavel é que escolhesse mal, porque difficil é julgar um homem bem quando está cahindo com somno.
Fui obrigado a pôr um grande pedaço, porque em maior espaço appareceria um maior numero d’esses poucos descuidos felizes do auctor.
BOSQUEJO
DA
HISTORIA DA POESIA E LINGUA PORTUGUEZA
I
Origem de nossa lingua e poesia
A lingua e a poesia portugueza (bem como as outras todas) nasceram gemeas, e se criaram ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral mesmo entre nacionaes, pela maior parte pouco versados em nossas cousas, o pensar que a lingua portugueza é um dialecto da castelhana, ou hespanhola segundo hoje inexactamente se diz.
Das variadas combinações das primitivas linguagens das Hespanhas com o Grego, o Latim, com os barbaros idiomas dos invasores do norte, e alfim com o Arabigo, nasceram em diversas partes da Peninsula diversissimas linguas que nem dialectos se podem chamar geralmente, porque, além de não haver uma commum, de muitos d’elles é tam distincta a indole e tam opposta que se lhes não colhe similhança.
Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a primeira que entre as linguas modernas se cultivou, mas que por sua breve dura não chegou nunca á perfeição. Das nações da Hespanha, as mais vizinhas áquelle crepusculo de civilização primeiro melhoraram sua linguagem: mas tambem lhes coube igual sorte; nunca de todo se puliram. O Castelhano e Portuguez, que mais tarde se cultivaram, permaneceram pelo sabido motivo da conservação da independencia nacional, e vieram a completo estado de perfeição e caracter cabal de linguas cultas e civilizadas. O Biscaínho, Catalão, Gallego, Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras mais foram e são ainda alguns distinctos idiomas: porém so os dous ultimos tiveram litteratura propria e perfeita, linguagem commum e scientifica, tudo emfim quanto constitue e caracteriza (se é licita a expressão) a independencia de uma lingua.
Grande similhança ha entre o Portuguez e Castelhano; nem podia ser menos quando suas capitaes origens são as mesmas e communs: porém tam parecidas como são pelas raizes de derivação; no modo, no systhema d’essas mesmas derivações, na combinação e amalgama de identicas substancias e principios se vê todavia que diversos agentes entraram, e que mui variado foi o resultado que a cada uma proveio. Filhas dos mesmos paes, diversamente educadas, distinctas feições, vario genio, porte e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de ambas aquelle ar de familia que á prima vista se colhe.