A minha primeira ideia quando intentei esta collecção, foi dar ao publico um extracto das melhores poesias de nossos classicos. Reflecti depois que não seria ella completa, porque alguns generos ha que não tractaram aquelles illustres escriptores: e em tam rica litteratura como é a portugueza, pena fôra mostrar pouquidade e pobreza. Resolvi-me por esse motivo a sahir dos limites classicos. Mas ainda apparecia outra difficuldade: especies ha de poesia em que não escreveram senão auctores vivos; atterrava-me a lembrança de haver de julgar e escolher obras que aguardam ainda o conceito da posteridade, quasi sempre unico tribunal recto das cousas dos homens, especialmente de materia de gôsto. Todavia o mesmo motivo de querer fazer esta escolha o mais completa que é possivel, me determinou a arrostar ess’outro escolho. Procurei nos escriptores vivos cingir-me quanto racionavelmente pude á mais geral opinião, escolhendo aquelles trechos que mais approvados teem sido; observando pela minha parte a mais rigorosa imparcialidade que humanamente se póde. E sendo, como sou, alheio a toda disputa e rivalidade litteraria e poetica, se alguma hora no decurso d’esta obra julgarem deslisei d’essa proposta impassibilidade, peço que o attribuam a erro de meu juizo, não a proposito deliberado.[33]
Queria eu tambem ao principio conservar a cada escriptor sua particular orthographia; mas a isso obstaram dous insuperaveis obstaculos. Primeiro—não haver, sôbre tudo nos classicos, uma base boa ou má em que cada um d’elles fundasse a sua orthographia para se poderem regularizar as incalculaveis anomalias que se encontram em uma mesma obra, na mesma pagina ás vezes. Segundo—que havendo sido muitas das obras de nossos poetas antigos e modernos publicadas posthumas, é impossivel acertar com o verdadeiro systhema orthographico d’elles. Esta impossibilidade augmentou ainda e se estendeu áquelles que apezar de publicarem suas obras em vida, cahiram em mãos de novos editores todos ignorantes ou descuidados (nenhum conheço, a quem fique mal o epitheto) que em vez de as melhorarem, estragaram e confundiram tudo. Ora d’alguns d’esses não foi possivel, por mais diligencias que se fizeram, descubrir as primeiras edições, as quaes, segundo observei, ainda assim, não serviriam de muito.
Accresciam a estes dous motivos a feia apparencia que teria a obra que mais houvera ficado recosida manta de retalhos furtacôres, do que uma collecção de poetas da mesma lingua.
Determinei pois imprimir tudo com regular e geral orthographia; cujos principios extrahi do uso dos melhores classicos, uso que nem sempre seguiram, mas que manifestamente se vê quizeram seguir; e são estes:
I. Conservar fielmente a ethymologia quando se lhe não oppõe a pronúncia.
II. Combiná-la com a pronúncia quando ésta se oppõe á inteira conservação d’aquella.
III. Nas palavras de raiz incognita seguir o uso geral.
IV. Nas diversas modificações dos verbos conservar sempre a figurativa quando a pronúncia não obsta.
V. Não pôr accentos (agudo e circumflexo que são os unicos portuguezes) senão onde a palavra sem elles se confundiria com outra. (Tambem me servi do agudo para marcar a dieresis por não estar aínda adoptado entre nós o signal (..) que é bem necessario).
Julgo haver prestado algum serviço á litteratura nacional em offerecer aos estudiosos de sua lingua e poesia um rapido bosquejo da historia de ambas. Quem sabe que tive de encetar materia nova, que portuguez nenhum d’ella escreveu, e os dous estrangeiros Bouterweck e Sismondi incorrectissimamente e de tal modo que mais confundem do que ajudam a conceber e ajuizar da historia litteraria de Portugal; avaliará decerto o grande e quasi indizivel trabalho que me custou esse ensaio. Não quero dá-lo por cabal e perfeito; mas é o primeiro, não podia se-lo. Além de que, a maior parte das ideias vão apenas tocadas, porque não havia espaço em obra de taes limites para lhe dar o necessario desenvolvimento.