Á volta este tempo se formou a academia das sciencias de Lisboa pelos generosos esforços do duque de Lafões. Esse corpo scientifico, de quem tanto bem se augurou para a lingua e litteratura nacional, nem fez tudo o que d’elle se esperava, nem uma parte mui pequena do que podia e lhe cumpria fazer: mas nem foi inutil, nem, como alguns teem querido, prejudicial. E todavia sua força moral não foi bastante para vencer um mal terrivel que já no tempo de sua creação se manifestava, mas que depois, cresceu e avultou a ponto, que veio a tornar-se quasi indestructivel.

Este mal foi o gallo-mania, que sôbre perverter o caracter da nação, de todo perdeu e acabou com a já combalida linguagem: phrases barbaras repugnantes á indole do idioma, termos hybridos, locuções arrastadas, sem elegancia, formaram a algaravia da moda, e prestes invadiram todas as provincias das lettras. Estudar a lingua materna, como aquella em que fallamos e escrevemos, é dos mais difficeis estudos, ha mister longa e porfiada applicação. Que bella invenção para a ignorancia e para a preguiça não foi esta nova linguagem mascavada e de furtacôres, que todos podiam saber sem fadiga, cujas leis cada-um moderava e arbitrava a seu modo, alterava a seu sabor com tam plena liberdade de consciencia! Foi a religião de Mafoma: propagou-a a incontinencia, a soltura, o desenfreio do appetite. Desprezaram-se os classicos, apodaram-se de ignorantes, de rançosos; e os que não ousavam, por algum resto de vergonha, desacatar assim as honradas cans dos nossos mestres, sahiram então com o banal e ridiculo pretexto de que ninguem podia lê-los pelas materias que tractaram; que tudo eram sermões, vidas de sanctos, historias de conventos, de frades. Vergonhosa desculpa! Comquê as decadas de Barros, que foi talvez o primeiro que introduziu com feliz execução o stylo classico na historia moderna, são chronicas de conventos? Fernão Mendes Pinto, o primeiro europeu que escreveu uma viagem regular da China e dos extremos d’Asia, são vidas de sanctos? E d’essas mesmas vidas de sanctos, quantas d’ellas são de summo interesse, divertida e proficua leitura! A vida de D. Fr. Bartholomeu dos Martyres tem toda a valia das mais gabadas memorias historicas, de que hoje anda cheia a Europa, e que ninguem taxou ainda de pouco interessantes. Quando outra cousa não contivesse aquelle excellente livro senão a narração do concilio de Trento, a viagem e estada do arcebispo em Roma, ja seria elle uma das mais curiosas e importantes obras do seculo XVI. E D. Francisco Manoel de Mello, e Rodrigues Lobo, e Camões, e grande cópia de poetas de todos os generos,—tudo isso são sermonarios, vidas de sanctos?

Miseria é que o geral dos portuguezes jurou nas palavras de quatro peralvilhos que essas calumnias apregoavam: passou em julgado que os classicos se não podiam ler, e ninguem mais quiz tomar o trabalho nem sequer de examinar se sim ou não assim era.

N’este estado de cousas appareceram em Portugal dous homens extraordinarios, ambos dotados pela natureza de prodigioso ingenho poetico, Francisco Manoel e Bocage. Aquelle, filho da eschola de Garção e Diniz, cultivou muito tempo as musas classicas, e já imbuido no gosto da antiguidade, já imitador e rival de Horacio e Pindaro, começou a ser conhecido em idade madura. Este, quasi desd’a infancia poeta, appareceu no mundo em toda a effervescencia dos primeiros annos, ardente cantor das paixões, enthusiasta, agitado do seu proprio natural violento, rapido, insoffrido, sem cabal instrucção para poeta, com todo o talento (raro, espantoso talento!) para improvisador.

Ambos começaram imitando os grandes mestres de seu tempo, seguindo cada-um em seu genero o stylo e gosto adoptado e geral desde a restauração das letras no meado do seculo. Mas não são ingenhos grandes para seguir, senão para fundar escholas: nem tardou muito que cada-um, per seu lado, não sacudisse todo jugo da imitação, e seguisse livre e rasgadamente um trilho novo. Bocage a quem seu fado, por mais aventureira lhe fazer a vida, levou ao antigo theatro das glórias portuguezas, voltando d’Asia foi recebido em Lisboa entre os applausos dos muitos admiradores que já tinha deixado na viril infancia de seu talento poetico. Augmentou-se esta admiração com os novos improvisos do joven poeta, com a extrema facilidade, com o mui sonoro de seus versos. O fogo de suas ideias ateou o enthusiasmo geral; a mocidade inflammou-se com o nome de Bocage: de enthusiasmo degenerou em cegueira, em mania; não lhe viam já defeitos; menos elle em si mesmo. Ninguem duvidava que os improvisos dos cafés do Rocio eram superiores a todas as obras da antiguidade, e que um soneto de Bocage valia mais que todos esses volumes de versos do seculo de João III. e do de José I. Ésta era a opinião commum da mocidade; e tam geral se fez, tantas vezes a ouviu repetir o objecto de tal idolatria, que força era que a acreditasse, que com ella se desvanecesse e desvairasse.

Isso lhe aconteceu. O temperamento irritavel e ardentissimo de Bocage o levava naturalmente ás hyperboles e exagerações: essas eram as mais admiradas de seus ouvintes; requintou n’ellas, subiu a ponto que se perdeu pelos espaços imaginarios de sua creação phantastica, abandonou a natureza, e a suppôz acanhado elemento para o genio. Mais elle repetia eternidades, mundos, ceos, espheras, orbes, furias, gorgonas; mais dobrava o applauso; mais delirava elle, mais o admiravam. Ao cabo, nem elle a si, nem os outros a elle o intendiam.[40] A par e passo que as ideias desvairavam, desvairava tambem o stylo, e emfim se reduziu a uma continuada antithese, perpetuos trocadilhos, tours-de-force, pulos, saltos, rumpantes, castelhanadas, com que se tornou monotono e (usarei d’uma expressão de pintor) amaneirado.

A metrificação de Bocage, julgam-na sua melhor qualidade; eu a peior; ao menos, a que peiores effeitos causou. Não fez elle um verso duro, mal soante, frouxo; porém não são esses os unicos defeitos dos versos. As varias ideias, as diversas paixões e affectos, as distinctas posições e circumstancias do assumpto, do objecto, de mil outras cousas,—variada medida exigem; como exige a musica varios tons e cadencias. A mesma medida sempre, embora cheia e boa,—o mesmo tom, embora afinado,—a mesma harmonia, embora perfeita,—o mesmo compasso, embora exacto, fazem monotona e insuportavel a mais bella peça de musica ou de poesia. E taes são os versos de Bocage, que nos pretendem dar para typo seus apaixonados cegos: digo cegos, porque muitos tem elle (e n’esse numero que conto!) que o são, mas não cegos. Imitar com o som mechanico das vozes a harmonia intima da ideia, supprir com as vibrações que só pódem ferir a alma pelo orgão dos ouvidos, a vida, o movimento, as côres, as fórmas dos quadros naturaes, eis ahi a superioridade da poesia, a vantagem que tem sobre todas as outras bellas artes: mas quam difficil é perceber e executar esse delicadissimo ponto! Poucos o conseguiram: Francisco Manoel foi entre nós o que mais finamente o intendeu e executou, mas nem sempre, nem cabalmente.

Porém nos intervallos lucidos que a Bocage deixava o fatal desejo de brilhar, n’alguns instantes que, despossesso do demonio das hyperboles e antitheses, ficava seu grande ingenho a sos com a natureza e em paz com a verdade, então se via a immensidade d’essa grande alma, a fina tempera d’esse raro ingenho que a aura popular estragou, perdeu o pouco estudo, os costumes desregrados, a miseria, a dependencia, a soltura, a fome. Muitas epistolas, varios idilios maritimos, algumas fabulas, e epigrammas, as cantatas, não são mediocres titulos de glória. Dos sonetos ha grande cópia que não tem igual nem em portuguez, nem em lingua nenhuma, d’uma força, d’uma valentia, d’uma perfeição admiravel. O resto é pequeno e pouco. A linguagem é pobre; ás vezes facil, mas em geral escaça. Sabía pouco a lingua; a força do grande instincto lhe arredava os erros; mas as bellezas do idioma, só as dá e ensina o estudo. As traducções de Ovidio, Delille e Castel são primorosas.

Mas de traducções estamos nós gafos: e com traducções levou o ultimo golpe a litteratura portugueza; foi a estocada de morte que nos jogaram os estrangeiros. Traduzir livros d’artes, de sciencias é necessario, é indispensavel; obras de gosto, de ingenho, raras vezes convem; é quasi impossivel fazê-lo bem, é míngua e não riqueza para a litteratura nacional. Essa casta de obras estuda-se, imita-se, não se traduz. Quem assim faz accomoda-as ao character nacional, dá-lhes côr de proprias, e não só veste um corpo estrangeiro de alfaias nacionaes (como o traductor), mas a esse corpo dá feições, gestos, modo, e indole nacional: assim fizeram os Latinos, que sempre imitaram os Gregos e nunca os traduziram; assim fizeram os nossos poetas da boa idade. Se Virgilio houvera traduzido a Iliada, Camões a Eneada, Tasso os Lusiadas, Milton a Jerusalem, Klopstock o Paraiso perdido; nenhum d’elles fora tamanho poeta, nenhuma d’essas linguas se enriquecera com tam preciosos monumentos: e todavia imitaram uns dos outros, e d’essa imitação lhes veio grande proveito.

Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal, e de tal modo estragou o gosto do público, que não só lhe não agradavam, mas quasi não intendia os bons originaes portuguezes: a poesia, a litteratura nacional reduziu-se a monotonos sonetos, a trovinhas d’amores, a insipidas enfiadas