De versinhos anões a anans Nerinas.

Tam baixos nos pozeram os admiradores e imitadores de Bocage, a quem justamente a critica stigmatizou com o nome de elmanistas,—e de elmanismo sua affectada eschola. N’elles se mostraram exagerados os defeitos todos do enthusiasta Elmano, sem nenhum dos grandes dotes, das brilhantes qualidades do poeta Bocage.

Alguns ha comtudo de quem esta asserção não deve intender-se em todo o rigor da phrase. João Baptista Gomes, auctor da Castro, mostrou n’ella muito talento poetico e dramatico. D’entre os bastos defeitos d’essa tragedia sobresahem muitas bellezas. Desvaira-o o elmanismo; derrama-se per madrigaes quando a austeridade de Melpomene pedia concisão, força e naturalidade; perde-se em declamações, extravaga em logares communs, inverte a dicção com antitheses, destroi toda a illusão com versos amiudo sesquipedaes e entumecidos; mas per meio de todas essas nevoas brilha muita luz de ingenho, muita sensibilidade, muita energia de coração; predicados que com o estudo da lingua que não tinha, com a experiencia que lhe fallecia, triumphariam ao cabo do mau gosto do tempo, e viriam provavelmente a fazer de João Baptista Gomes o nosso melhor tragico. Atalhou-o a morte em tam illustre carreira, e deixou orphão o theatro portuguez que de tamanho talento esperava reforma e abastança.

Mas em quanto Bocage e seus discipulos tyrannizavam a poesia e estragavam o gosto, Francisco Manuel, unico representante da grande eschola de Garção, gemia no exilio, e de la com os olhos fitos na patria se preparava para luctar contra a enorme hydra cujas innumeras cabeças eram o gallicismo, a ignorancia, a vaidade, todos os outros vicios que iam devorando a litteratura nacional.

A sua epistola sobre a arte poetica e lingua portugueza, póde rivalizar com a de Horacio aos Pisões: força d’argumentos, eloquencia da poesia, nobre patriotismo, finissimo sal da satyra, tudo ahi peleja contra o monstro multiforme.

Que direi das odes? Minha intima persuasão é que nunca lingua nenhuma subiu tam alto como a portugueza na lyra de Francisco Manuel. Que ha em Pindaro comparavel á ode a Afonso d’Albuquerque? onde ha poesia sublime, elegante, immensa como seu assumpto, na dos novos Gamas? se o patriotismo fallasse alguma hora aos degenerados netos de Pacheco e Albuquerque, que poderia elle dizer-lhes igual áquella inestimavel ode que se intitula Neptuno aos portuguezes? E quando a liberdade troa na espada de Washington, submette os raios de Jupiter ao sceptro dos tyrannos aos pés de Franklin, ou tece pelas mãos de Penn os laços de fraterna união! Que immenso, que grandioso é o cantor de tamanhos objectos! Quando nas odes a Venus, a Marfisa, a Marcia voltando inopinada, no hymno á noite se requebra em amoroso jubilo, ou se enternece de saudade, todo é graças e primores de linguagem, de imaginação, de stylo, de delicadeza, de inimitavel poesia. No genero Horaciano não é elle tam puro e perfeito como Garção, mas nem intendeu menos nem imitou peior o seu modêlo.

Entre as epistolas ha muitas admiraveis: dos contos e fabulas, alguns com elegante sal e chiste. As traducções do Oberon de Wielland, da Guerra punica de Silio Italico, mas sobre todas, a dos Martyres de Chateaubriand, são thesouros de linguagem e de poesia.

Nenhum poeta desde Camões havia feito tantos serviços á lingua portugueza: so per si Francisco Manuel valeu uma academia, e fez mais que ella; muita gente abriu os olhos, e adquiriu amor a seu tam rico e bello, quanto desprezado idioma: e se ainda hoje em Portugal ha quem estude os classicos, quem se não envergonhe de lêr Barros e Lucena, deve-se ao exemplo, aos brados, ás invectivas do grande propugnador de seus foros e liberdades.

Nos ultimos periodos de sua longa vida afrouxaram as energicas faculdades d’este grande poeta, e excepto a traducção dos Martyres (que assim mesmo tem seus altos e baixos) quasi tudo o mais que fez é tibio e morno como de um octogenario se podia esperar. O nimio temor de commeter gallicismos, a que tinha justo e sancto horror, o fez cahir em archaismos e affectação demasiada de palavras antiquadas e excessivos hyperbatos. Não são porém estas faltas, nem tantas nem tamanhas como o pregoou a inveja e a ignorancia.

Muito honrosa menção deve a historia da lingua e poesia portugueza a Domingos Maximiano Torres, cujas eclogas rivalizam com as de Quita e Gessner, cujas cançonetas são, depois das de Claudio Manuel da Costa, as melhores que temos. Foi este muito intimo de Francisco Manuel, mas tenho por mui exagerados os elogios que d’elle recebeu.