Antonio Ribeiro dos Santos, honra da magistratura portugueza, foi imitador e émulo de Ferreira: poucos ingenhos, poucos characteres, poucos stylos ha tam parecidos; se não que o auctor dos coros da Castro era muito maior poeta, e o cantor do grande D. Henrique muito melhor metrificador. Ésta ode ao infante sabio, algumas outras a varios heroes portuguezes, algumas das epistolas, e especialmente os versos que lhe dictava a amizade para o seu Almeno, são d’uma elegancia e pureza de linguagem rarissima em nossos dias.
Este Almeno é Fr. José do Coração de Jesus, missionario de Brancannes, que traduziu os primeiros livros das methamorphoses de Ovidio em excellente, riquissimo, purissimo portuguez, mas em maus versos: e ainda assim, alguns d’elles são felizes: é de estudar, de versar com mão diurna e nocturna esse comêço de traducção para quem quizer conhecer as riquezas de uma lingua que compete, emparelha, vence ás vezes, a sua propria mãe latina.
Duas ou tres odes d’este virtuoso e erudito padre são mui bonitas.
Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional no seu genero: Boileau teve mais força, mas não tanta graça como o nosso bom mestre de rhetorica. E de suas satyras ninguem se pode escandalizar; começa sempre per casa, e primeiro se ri de si antes que zombeteie com os outros. As pinturas dos costumes, da sociedade, tudo é tam natural, tam verdadeiro! Confesso que de todos os poetas que meu triste mister de critico me tem obrigado a analysar, unico é este em cuja causa me dou por suspeito: tanta é a paixão, a cegueira que tenho polo mais verdadeiro, mais engraçado, mais bom homem de todos os nossos escriptores. Aquelle bilhar, aquella funcção de burrinhos, aquelle cha, aquellas despedidas ao cavallo deitado á margem; o memorial ao principe, o presente do perum, são bellezas que so não admirarão atrabilarios zangãos em perpetuo estado de guerra com a franca alegria, com o ingenuo gôsto da natureza.
De José Anastacio da Cunha, que das mathematicas puras nos deu o melhor curso que ha em toda Europa, d’esse infeliz ingenho (que talento houve já feliz em Portugal?) a quem não impediam as rectas de Euclides, nem as curvas de Archimedes de cultivar tambem as musas; de tam illustre e conhecido nome que direi eu senão o muito que me peza da raridade de suas poesias? Todas são philosophicas, ternas e repassadas d’uma tam meiga sensibilidade algumas, que deixam n’alma um como echo de harmonia interior que não vem do metro de seus versos, mas das ideias, dos pensamentos. Todavia ha mister lê-lo com prevenção, porque (provavelmente estropiada de copistas) a phrase nem sempre é portugueza de lei.
O padre A. P. de Sousa Caldas, brazileiro, é dos melhores lyricos modernos. A poesia biblica, apenas encetada de Camões na paraphrase do psalmo super flumina Babylonis, foi per elle maravilhosamente tractada; e desde Milton e Klopstock ninguem chegou tanto acima n’este genero.
A cantata de Pygmalião, a ode O homem selvagem são excellentes tambem.
Aqui me cai a penna das mãos: o estadio livre para a critica imparcial acabou. Nem posso continuar a exercê-la sem temor, nem o faria ainda assim, pois não quizera vêr revogadas minhas presumidas sentenças pela severa posteridade, quasi sempre annulladora de juizos contemporãos.
Não posso todavia fechar este breve quadro sem patentear a admiração, e o indizivel prazer que me deu o poema do Passeio do snr. J. M. da Costa e Silva, cuja existencia tinha a infelicidade de ignorar (tam pouco sabemos nós portuguezes das riquezas que temos em casa!) e que não sei que tenha que invejar a Thompson e Delille, se não fôr na pouca extensão e, acaso dirá mais severo juiz, em algum verso de demasiado elmanismo. Quanto a mim, folgo de me lisongear com a esperança que seu auctor lhe dará a amplidão e mais (poucos mais) retoques com que ficará por ventura o melhor poema d’esse genero.
Apezar dos motivos referidos, pedirei uma venia mais para mencionar como um poema que faz summa honra ao nome portuguez, a Meditação do snr. J. A. de Macedo, que tem sido censurada por quem não é capaz de intendê-la. Não sei eu se ella tem defeitos; é obra humana, e de certo lhes não escapou; mas sublimidade, cópia de doctrina, phrase portugueza, e grandes ideias, só lh’o negará a cegueira ou a paixão.