II
BERNAL-FRANCEZ
Este romance é tirado de uma das mais conhecidas e provavelmente mais antigas xácaras que o povo canta. Sua contextura simples mas forte, a scena tão dramatica com que abre, o fexo sublime com que termina dão-lhe todos os characteres de poesia primitiva e grande de um povo heroico, de uma gente que tomava as coisas da vida ao serio, como a nossa era. Estou que é originariamente portuguez: não apparece em nenhum dos romanceiros castelhanos, nem na vasta collecção de Ochoa.—O texto, como o conservou a tradição oral dos povos, da-lo-hei no logar competente, segundo lh’o talhei no prefacio d’este volume[12], e demandava o systema da minha compilação: e ahi se vejam as conjecturas que tenho feito sôbre ésta preciosa reliquia da nossa poesia popular.
Mr. Southey, o famoso poeta e historiador inglez, tendo lido a Adozinda e o Bernal, quando os publiquei a primeira vez em Londres em 1828, escrevia ao meu amigo Mr. Adamson, o biographo de Camões: ‘que estes eram dois monumentos de mais remota antiguidade talvez do que nenhumas d’aquellas canções irlandezas que elle até alli tivera na conta de serem os vestigios mais antigos de toda a poesia popular das nações do oeste da Europa.’
Communicando-me ésta reflexão, tam lisongeira para um collector enthusiasta de antigualhas, mandou-me o Sr. Adamson a traducção ingleza que pela primeira vez agora sai impressa, e o leitor achará logo adeante do texto portuguez[13].
No verão de 1840, quando apromptei para a presente edição ésta parte do volume, dediquei o Bernal-Francez a uma joven senhora que juntava a outras admiraveis qualidades a de possuir, no mais eminente grau que ainda incontrei, o sentimento do bello, do grande, do verdadeiro nas artes. Este romancinho era o seu valído d’entre todas as minhas escreveduras poeticas: consagrei-lh’o... Hoje é um monumento! bem pobre e mesquinho para memoria de tanta saudade!