O Padre João Ferreira d’Almeida assim:—‘Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram fermosas, e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.’

Mas os Settenta não tinham intendido assim o texto hebraico, e em vez de—filhos de Deus, traduziram—anjos de Deus (οἰ Αγγελοι του Θεου); êrro, que ajudado pelos commentos poeticos de Philon, e pelas ficções do apocrypho livro de Enoch, accendeu as imaginações meio pagans de Tertuliano, de Lactancio, e até de San’Clemente-Alexandrino. Seja ditto com o devido respeito a estes Padres da Egreja: nem Hesiodo nem Ovidio estenderam fábula alguma do polytheismo por maiores desvarios do que elles poetizaram acêrca d’esta ficção. Rejeitou-a todavia a maior parte dos Sanctos Padres. Deplorou-a como absurdo San’João Chrysostomo, stigmatizou-a de loucura San’Cyrillo. Segundo elles as palavras—filhos de Deus—querem dizer:—os descendentes de Seth por Enos, porque foram os primeiros que invocaram o nome do Senhor. Assim por estoutras palavras—as filhas dos homens—devemos intender:—as filhas da corrupta raça de Cain. É opinião seguida sem disputa, na egreja catholica e em quasi todas as outras, desde Sancto Thomaz até hoje.

O TARGUM DE ONKELOS, que é a mais antiga das paraphrases chaldaicas, e a versão de Symacho traduziram—os filhos dos nobres ou grandes; a versão samaritana diz—os filhos dos juizes.

E parece que a palavra hebraica, Elohim, admitte todas éstas tam desvairadas interpretações.

Seja como for, d’aquelle desvio de texto e de imaginação nasceu muita poesia para os escriptores mysticos dos judeus e dos christãos primitivos e dos gnosticos e de todas essas seitas do Oriente, e porfim, em nossos dias, para os poemas de dois vates, ambos christianissimos hoje, ambos eminentemente catholicos—o francez talvez agora um tanto menos,—o inglez muito mais, principalmente depois d’essa ultima sua obra philologo-orthodoxa.

Eu porêm não quiz fazer mais do que uma ‘lenda-romance’ como a comporia um menestrel da edade-media em cujas coplas os donairosos sonhos da mythologia, assim como os severos mysterios da crença, tomavam sempre os habitos sociaes do seu tempo. Jupiter era Dom Jupiter, rei de coroa na cabeça e barbas até á cinta, rodeado de condes e de pagens, servido por nobres donzellas de espartilho e toucas altas; San’Miguel e o proprio Lucifer dois cavalleiros de lança em punho e escudo imbraçado, justando em mui leal batalha n’essas nuvens, com Legiões e Potestades por mantenedores do campo;—o Olympo era um castello feudal, e o ceo uma roca-forte. Em summa, sem princezas e cavalleiros não havia poesia para elles, nem a podia haver, porque essa era a vida que elles conheciam, o bello e sublime da vida que concebiam.

Por isto o tom biblico d’esta lenda ou legenda necessariamente é modificado e predominado do ar cavalheresco ou romantico, proprio de um cultor da Gaya-Sciencia. Veja-se no Cancioneiro de Rezende como, ainda no seculo XV, o nosso João Rodrigues de-Sa-e-Menezes traduzia—não tanto do latim para portuguez, quanto do romano para romance, a epistola de Laodamia. Veja-se como o proprio Sá-de-Miranda na egloga IV reconta as classicas aventuras de Cupido e Psychis,—verdadeira fonte tambem da muito romantica e trovada historia da carochinha, A Bella e a Fera, que toda a gente sabe—ou soube quando era pequeno.

O fio da minha legenda é muito singelo. Era uma vez a filha de um rei, môça, linda, e unica herdeira do throno. Fugia das diversões e grandezas da côrte para se intregar á meditação na soledade. Adoece mortalmente emquanto el-rei seu pae anda á guerra. Volta elle triumphante e vem-n’a achar na derradeira agonia. O seu mal não o intendem os physicos. Lembra-lhes se será alguma secreta paixão d’amor. Elrei está prompto a tomar para genro seja quem for, comtanto que lhe viva a filha. Nem assim. Morre a pobre da princeza, e morre de mal d’amores. Mas como não havia de ser, se a sua fatal paixão é por um espirito—um gnomo, um sylpho, um anjo—quem sabe o quê!—talvez outro Bertrand que se apoderou d’esta Rosalia.—Ao menos, escapámos de segundo Roberto-do-diabo, porque a boa da infanta era de consciencia, e morreu antes d’isso.

E d’ahi, quem sabe? seria anjo bom o que ella amava. Segundo San’Basilio, de vera virginitate, não póde ser; segundo Tertuliano e San’Clemente-Alexandrino ja se viu que podia ser.

Campolide, 5 d’Outubro 1842.