NA SEGUNDA EDIÇÃO
Depois que publiquei em Londres, em 1828, o meu romancinho a Adozinda que aqui vai na frente d’este volume, cheguei a ter uma bastante collecção d’essas trovas e romances populares, xácaras e soláos—designações que, sinceramente confesso, não sei ainda quadrar bem nas diversas especies e variedades em que se divide o genero.
Eram uns vinte e tantos havidos pela tradição oral do povo, quasi todos colligidos nas circumvizinhanças de Lisboa pela indústria de amigos zelosos, e principalmente pelo obsequioso cuidado de uma joven senhora minha amiga muito do coração.
Por voltas do anno seguinte, 1829, os tinha eu pela maior parte correctos, annotados,—e collacionadas as principaes das infinitas variantes que todos trazem, porque cada rhapsodista d’estes que sabe a sua xácara, a repette a seu modo, e sempre differente em alguma coisa do que outro a diz.
Cresceram logo mais os meus haveres pela contribuição de outro amigo tambem muito particular e muito prezado, o Sr. Duarte Lessa, homem de raras e prestantes qualidades que amenizava a constante applicação a mais graves estudos, cultivando a litteratura e as artes, cujas obras appreciava com tacto finissimo e zelava com fervor patriotico, porque intendia—e bem o intendia!—que ellas são o espirito, a alma, o in ipso vivimus et sumus de uma nação. Tinha elle adquirido em Londres varios livros e manuscriptos que haviam sido do célebre portuguez o cavalheiro de Oliveira, aquelle que renunciou ao importante cargo de nosso ministro na Haya para abraçar a communhão protestante, na qual viveu em Inglaterra os ultimos annos da sua vida, quasi unicamente da charidade de seus novos correligionarios.
Havia entre esses livros um exemplar da Bibliotheca de Barboza, inquadernados os tomos com folhas brancas de permeio, e escriptas éstas, assim como as amplas margens do folio impresso, de lettra muito miuda, mas muito clara e legivel, com annotações, commentarios, emendas e addições aos escriptos do nosso douto e laborioso mas incorrecto abbade.
Via-se por muitas partes que o longo trabalho do Oliveira fôra feito depois da publicação das suas Memorias, porque a miudo se referia a ellas, confirmando e ampliando, corrigindo ou retractando o que lá dissera.