Nos artigos D. Diniz, Gil-Vicente, Bernardim-Ribeiro, Fr. Bernardo de Brito, Rodrigues-Lobo, D. Francisco-Manuel, e em varios outros que vinha a proposito, as notas manuscriptas citavam, e transcreviam como illustração, muitas coplas, romances e trovas antigas—e até prophecias, como as do Bandarra—fielmente copiadas, asseverava elle, de Mss. antigos que tivera em seu poder na Hollanda e em Portugal, franqueados uns por judeus portuguezes das familias emigradas, outros havidos das preciosas collecções que d’antes se conservavam com tão louvavel cuidado nas livrarias e cartorios dos nossos fidalgos.

Foi-me logo confiada a inextimavel descuberta; percorri com avidez aquellas notas, examinei-as com escrupulosa attenção, e, extractando uma por uma quantas coplas, cantigas e xácaras achei, completas e incompletas, accrescentei assim os meus haveres com umas cinquenta e tantas peças, d’ellas anonymas e verdadeiramente tradicionaes, d’ellas de auctor conhecido e que nas edições de suas obras se incontram,—taes como Bernardim-Ribeiro, Gil-Vicente e Rodrigues-Lobo—mas que differiam das impressas, consideravelmente ás vezes, muitas até na linguagem da composição, poisque algumas alli achei em portuguez, e manifestamente antigo e da respectiva epocha, as quaes só andam impressas em castelhano.

Com este auxilio corrigi denovo muitos dos exemplares que ja tinha, e completei alguns fragmentos que ja desesperára de podêr vir nunca a restaurar. E tomando para modêlo as estimadas collecções de Elis e do bispo Percy, e a das fronteiras de Scocia por Sir Walter Scott, comecei a dar novo methodo e mais amplos limites á minha compilação que ao principio intitulára Romanceiro-Portuguez.

O longo e mais serio trabalho que por esse tempo emprehendi no meu tractado geral Da Educação, cujo primeiro volume se publicou em Londres em 1829, me fez relaxar n’aquell’outro: depois os cuidados politicos e alguns officiaes, o complemento e impressão de outra obra de mais grave assumpto, o Portugal na Balança da Europa, que foi impresso no anno seguinte, 1830,—talvez alguma inconstancia de auctor, bem desculpavel n’aquella tarefa, tam tediosa ás vezes, de collacionar, estudar e explicar textos ja viciados da ignorancia do vulgo por cujas bôccas e memorias andaram, ja de outra ignorancia mais confiada e mais corruptora ainda, a de copistas presumpçosos de lettrados e de castigadores do que elles suppoem vício.

Comtudo, e apezar d’aquellas e de outras occupações e distracções, eu sempre voltava de vez em quando ao meu Romanceiro, e o tinha bastante adeantado, quando nos fins de 1831 abandonei tudo o que eram cuidados de sciencia ou recreações litterarias para me alistar no exercito da Rainha, e imbarcar para os Açores. Em Janeiro de 1832 sahi de París com praça de simples soldado, consegui por este modo tomar minha humilde parte n’aquella expedição, cujos avisados e cautelosos directores com tanto impenho afastavam toda a gente conhecida de verdadeira liberal, por todos os modos, por modos que hãode parecer incriveis, e que elles hoje negariam a pés junctos, se fosse possivel negar o de que ha tantas testimunhas e tantas victimas ainda vivas, tantos documentos que hãode durar mais que ellas.

A minha curta estada nas ilhas foi impregada quasi toda nos trabalhos de legislação e organização administrativa a que alli se procedeu, e de que me encarregou a amizade e confiança de um amigo particular, então em grande valimento, ao qual e á dura necessidade de me achar eu unico alli que tivesse estudado aquellas materias, teve de ceder forçosamente a ciosa malevolencia dos accaparadores que ja na esperança estavam devorando as ruinas de Portugal a que almejavam chegar—pelos esforços e risco alheio—não porcerto para meditar sôbre ellas como outros Marios—oh que Marios!—mas para as revolver e basculhar como Alaricos...

Faziam-me a honra de me querer mal esses senhores: lisongeio-me de lh’o merecer: davam-se ao incómmodo de me intrigar; e era desperdicio de tempo e de arte, porque não ha mister intrigas para tirar favor de principes a quem, como eu, os apprecia muito e se honra muito d’elles, mas não é capaz de fazer o mais leve sacrificio para os conservar; jamais soube, em tantas opportunidades, convertê-los em nenhuma consequencia legítima; nunca, nem o mais indirectamente que é possivel, tractou de os consolidar em nenhuma realidade utilitaria e de proveito pessoal.

Peço perdão da digressão: não a fiz eu mas as coisas,—que pelos tempos em que vivemos tam baralhado anda tudo, que até a historia litteraria e poetica se confunde com a dos successos e relações politicas.

D’esse tam pouco e tam occupado tempo permittiu comtudo o accaso que alguns instantes se podessem approveitar em beneficio do pobre Romanceiro, que alli ia tambem, o coitado, na expedição, incolhido e amarrotado na mochilla de um triste soldado raso, sem se lembrar de aspirar á inaudita honra de seu illustre predecessor, o Cancioneiro de Rezende, que serviu de Evangelho para jurar aquelle rei gentio.—Havia pouco por alli quem lhe importasse com Evangelhos e juramentos.

Foi o caso que umas criadas velhas de minha mãe e uma mulata brazileira de minha irman appareceram sabendo varios romances que eu não tinha, e muitas variadas licções de outros que eu sim tinha, porêm mais incompletos. Assim se additou copiosamente o meu Romanceiro.