O postscriptum, servindo de nota ao commento, sahiu impresso no referido jornal, e foi ampliado com algumas observações por extremo lisongeiras dos Srs. editores, a quem muito desejei auxiliar como elles mereciam por sua gentil imprêza, que era a mais bella e das mais uteis que se teem commettido em Portugal.
Devo ao seu favor, não só o terem adornado a minha MIRAGAIA com as lindas gravuras em madeira que todos admiraram, mas o permittirem que se fizesse com ellas a pequena edição em separado com que quiz brindar alguns amigos, apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares.
Era uma folha avulsa do meu ROMANCEIRO, e n’elle vai reposta agora que se offerece tempo e logar conveniente.
Foi das primeiras coisas d’este genero em que trabalhei: e é a mais antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas d’este romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus paes n’uma pequena quinta, chamada ‘O Castello’ que tinhamos áquem Doiro, e que se diz tirar esse nome das ruinas que alli jazem do castello mourisco.
Na ermida da quinta se venerava uma imagem antiquissima de Nossa-Senhora com a mesma invocação ‘do Castello,’ e com a sua legenda popular tambem, segundo o costume.
Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados pela tradição. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é deliciosa comeffeito; e tenho idea de me ter custado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da feira de San’Miguel, os toques da bozina de S. M. Leoneza, impoleirando-me, como elle, n’um resto de muralha velha do castello d’elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante energia, que ainda hoje me lembra tambem.
Assim ólho para ésta pobre MIRAGAIA como para um brinco meu de criança que me apparecesse agora; e quero-lhe—que mal ha n’isso?—quero-lhe como a tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale.
Lisboa, 24 de Janeiro 1847.