‘Perguntaram-me a explicação d’aquellas pêgas da sala. Contei a historia popular que é tam sabida. Acharam-lhe graça, pediram-me que a posesse em verso: fiz isto.

‘E isto que é? Não sei. É romance ou é apologo? É fabula ou é cantiga? Nunca fui grande classificador d’essas coisas; que fará agora!

‘O que lhe sei dizer é que no seculo XVI a XVII, segundo consta do ‘Fidalgo aprendiz’ do nosso Francisco Manuel de Mello, se cantava em Portugal uma cantiga que começava assim como ésta:

«Gavião, gavião branco,

Vai ferido e vai voando.»

‘Nunca pude encontrar o resto, nem procurei muito por elle; mas ingracei com este princípio, e servi-me d’elle aqui. Acha mal feito? Eu não.

‘Se soubesse, meu caro senhor, todas as circumstancias d’esta composição! Se soubesse de certa pêga ou pêgas que me perseguiram com seu malditto palrear, e me queriam, ainda em cima, assacar, a mim gavião, ellas pêgas, as manhas que só ellas têem!

‘Mas ficou lograda a pêga e...

‘Adeus, meu amigo, outra vez, adeante! O gavião, e sobretudo o gavião branco—note—é animal nobre, de especie, genero e até de familia differente da pêga.

‘Passe muito bem. Aqui estão os versos; eu vou salvar a patria.’