’—Queria escrever-lhe um artigo, meu caro redactor, para a sua ILLUSTRAÇÃO, que realmente faz milagres no meio d’esta escacez de tudo, e d’estes impedimentos para tudo que characterizam a nossa boa terra. É promessa velha e que eu devia ter cumprido ha muito. Mas como, mas quando? E que hade um homem escrever que se leia—que se leia por damas bellas e elegantes cavalheiros—quando lhe anda intallado nos bicos da penna o fatal fio da politica, que a faz espirrar e esgravatear em tudo o mais?
‘Com as leis das eleições, e as questões da fazenda, e as organisações ministeriaes, e não sei que mais coisas taes, foi-se-me detodo a derradeira reminiscencia litteraria que ainda por cá havia. Tenho saudade d’ella, mas foi-se, ‘morreu pela patria!’
‘Não sei se morreu bem ou mal, se fez bem ou mal em morrer; mas é certo que morreu.
‘Eu porêm nunca prometti, que faltasse, a homem nenhum—nem a mulher, que mais é! O ponto está que me acceitem em pagamento aquillo que eu posso dar. Que, ás vezes, o máu pagador não é máu senão pelas absurdas e excessivas exigencias do crédor. Axioma de eterna verdade, especialmente quando applicado a tudo o que passa entre os representantes de nosso pae Adão e as representantas de nossa mãe Eva...
‘Passemos adeante. Quer, senhor redactor, acceitar-me, em pagamento da lettra de minha promessa, este papel que achei embrulhado entre mil rabiscos de projectos de lei, tenções de autos, notas ao orçamento e outras coisas galantes do mesmo genero?
‘Se quer aqui o tem, e disponha d’elle.
‘Deixe-me só dizer-lhe o que é, e como foi feito.
‘Estava eu em Cintra, foi em... Que importa lá quando foi? Basta saber que não era n’essa estação fashionavel em que a elegancia de Lisboa se vai infastiar classicamente para o mais romantico sítio da terra. Era na primavera; passeavamos dois sós, ou quasi sós, n’aquelle Eden delicioso. Fomos ver o palacio; chegámos á sala das pêgas. Pêgas são chocalheiras e linguarudas: eu detesto o bicho... e n’este tempo, estava-lhe com zanga de morte...
‘Abominavel bicho! Isto ja lá vai ha muito tempo, meu caro redactor, e ainda me faz ferver o sangue...
‘Passemos adeante!