Com elle e com Bernardim-Ribeiro creio que morreu, litterariamente fallando, nos fins do seculo XV, principios do XVI, para resuscitar depois, á primeira trombeta do seiscentismo, como todos os generos populares que por essa reacção resurgiram; mas rebicado e contrafeito, secante de metaphoras, pesado de conceitos, escripto emfim com a penna d’aza da ‘Phenix-renascida.’
Quanto elle fôra estimado e cultivado entre nós em tempos de Gil-Vicente, vê-se de muitos logares de seus dramas. E ahi se vê tambem que promiscuamente compunham os nossos trovadores ja no dialecto de Castella, ja no de Portugal, e ainda o mesmo romance ou soláo ora se cantava em uma, ora n’outra linguagem.
Para exemplo e próva, leia-se com attenção o dialogo do feiticeiro com a ama de Cismena na scena II de Rubena[107]. Ahi véem citados como portuguezes e em portuguez, apar de outras cantigas castelhanas, muitos romances que alguns passam hoje por legitimos filhos de Castella e em suas collecções se incontram; de outros nem por ellas ha memorias. Tal é o que começa:
‘Eu me sam Dona Giralda’;
de que não achei outro vestigio nem nos romanceiros castelhanos, nem na nossa tradição oral. Tal é est’outro:
‘Em Paris está Donalda’;
que vem nos citados romanceiros, pôsto que differentemente escripto.
Tambem no auto dos Quatro tempos cantam estes ‘até chegar ao presepio,’ manda a rubrica[108], uma cantiga franceza que diz:
‘Ai de la noble
Villa de Paris!