É claro que este é um romance; e romance conhecido, e que não era castelhano nem portuguez, mas francez. E d’aqui se deprehende tambem uma coisa que muitas vezes tenho julgado intrever, e de que tenho quasi uma consciencia íntima, sem ousar dá-la por certa, porque não ha ainda todas as próvas documentaes que se precisam para uma asserção que hade parecer atrevida: e é—que os romances primitivos quasi que eram communs ás linguas romanas, e que nenhuma os vindicava exclusivamente; porque o trovador catalão ou provençal, portuguez, normando ou castelhano pertencia mais á republica litteraria e artistica de sua profissão, do que a nenhum reino ou nação, ou divisão politica do paiz. Cantava-se o romance para lá do Ebro? davam-se ás palavras desinencias mais curtas e contrahidas; dizia-se para cá d’elle? produziam-se mais arredondadas. Entre Portugal e Castella menos era preciso ainda, porque as linguas, ja tam similhantes, ainda o eram mais então, e no especial dialecto do romance dobradamente.
Apponto isto aqui somente como ementa, para mais devagar se reflectir e estudar no que indico. Ha grande verdade na indicação; mas até onde ella chega, não sei dizer porora, nem saberei talvez nunca, porque me não sobra tempo nem paciencia para dar professadamente a estas coisas. Vou escrevendo o que me occorre como curioso. A sciencia fará o seu officio com o tempo. Eu não pretendo a litterato nem a crítico, e n’estas coisas menos que em nenhuma. Occupo as minhas horas vagas com estes divertimentos innocentes; não faço mais nada.
Tornando ao nosso Gil-Vicente, na segunda scena—acto, jornada, ou parte II—da Rubena, canta a Cismena em portuguez outro princípio de romance mui notavel pelo metro pouco usado na nossa lingua:
‘Grandes bandos andam na côrte,
Traga-me Deus meu bonamore.’
Muitas outras próvas achará alli o leitor curioso de que este genero era o mais popular então entre nós. Como tal o cultivou Gil-Vicente; e assim o mostra o romance dos Padres no Limbo no auto da ‘Historia de Deus’, o da Barca dos Anjos no auto do ‘Purgatorio’, o da Infanta no auto das ‘Côrtes de Jupiter’, e muitos outros dispersos por suas obras dramaticas, alêm dos dois bem conhecidos que expressamente compôs, um á morte d’elrei Dom Manuel, outro á acclamação de Dom João III.
Este primeiro que aqui ponho é o de Dom Duardos que vem ao fim da tragicomedia (aliás drama cavalheiresco) do mesmo titulo. Em castelhano foi escripta a tragicomedia, e em castelhano alli vem o romance; na collecção, que por vezes tenho citado, do cavalheiro de Oliveira, apparece em portuguez com declaração de se incontrar assim n’um antigo manuscripto do seculo XVI que visivelmente era contemporaneo do poeta. Eu dou-o em ambas as linguas. E pôsto que os nossos vizinhos o codificassem em seus romanceiros como proprio, fica assim evidente o ser elle de fábrica portugueza e do nosso Gil-Vicente, quer primitivamente o composesse elle na nossa lingua, quer na d’elles.
Eisaqui o que, no fim da tragicomedia, diz Artada, antes de cantar o romance:
‘Por memoria de tal trance