Will ze lodge a silly poor man?[126]

O rei James, que morreu de trinta e tres annos, em 13 de Dezembro de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras pelas aldeas ou pelos bairros escusos das cidades. Cantor de seus proprios feitos, celebrava-os depois em gallantes trovas, a que não falta a graça nem o chiste do genero. A que se intitula The Jolly Beggar, e que por licenciosa e fresca de mais, a não admittiu o bispo Percy na sua collecção, talvez tenha ainda mais merito de arte.

O Gaberlunzie man da real ballada é porêm todo inteiro o Cego da nossa xácara, menos em certos incidentes que são mais poeticos e mais interessantes na composição portugueza.

Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta jerarchia fallou de amores a uma donzella de muito inferior nascimento que vivia com sua velha mãe. Por accôrdo, mais ou menos expresso entre os dois amantes, se appresenta este por noite á porta da velha com sua caramunha. A mãe dorme; e Anninhas, que responde ao cego, parece fazê-lo ou com ironia ou em pique de ciumes, e por nenhum modo lhe quer abrir ‘porta ou postigo.’

Põe-se o cego a cantar lamentosamente a soa desgraça; e com a chorada cantilena se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta a mãe para que o venha ouvir; e quando ésta condoida lhe manda dar esmola, o cego recusa, não quer senão que o ponham no caminho que perdeu. É a propria velha, coitada, a que diz á filha que lh’o va insinar. E assim fogem os dois, com a maior tranquilidade com que ainda fugiram amantes.

Note porêm a maestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre aquella tam perdoavel hypocrisia feminina, último protesto do pudor moribundo. Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, vai parecendo acreditar que não sabe aonde nem a que vai. Senão quando, apparece um tropel de cavalleiros: é a comitiva do nosso rei incuberto, principe ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e andrajos de mendigo! A cavallo e trotar largo! Ja o cego vê, ja a donzella sabe onde vai. E com este seu fino e malicioso ditto, conclue a trova:

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Tal é o argumento da cantiga portugueza muito mais romanesco do que o das escocezas, pôsto que seja o mesmo o fundo da anecdota.