A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.[2]
Stando eu á janella co'a minha almofada,
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
Passa um cavalleiro, pedia pousada;
Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
—'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada…
Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
Que a um cavalleiro que pede pousada
Se fecha ésta porta á noite cerrada.'
Roguei e pedi—muito lhe pezava!
Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
Poucas as pallavras, que mal me fallava,
Mas eu bem sentia que elle me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.