No fim de sette annos passa o cavalleiro,
Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
—'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares, serei teu romeiro.'
—'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
Que me degollaste que nem um cordeiro.'
Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio—o de que não tenho a menor idea—ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.
Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações ecclesiasticas.
O caso é grave, fique para novo capitulo.
CAPITULO XXX.
Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular.
A milagrosa Sancta Iria—Sancta Irene—que deu o seu nome a Santarem, donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.