—'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu… quem sabe! talvez nenhum.—Não quero perder ésta última illusão… ja não tenho outra… Talvez nenhum amou como tu me amaste ou… ou cuidaste amar-me. Eu… oh! eu quiz-te… pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio, este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde consagrar licitamente.

Bem castigada estou: mereci-o.'

—'Georgina, Georgina!'

—'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de me ouvir.—Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva dedicação de todo o meu ser… dize-o tu.'

—'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es…'

—'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não ama.'

—'Não, certo, não.'

—'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam felizes como nós nos breves dias que isto durou.—Tu partiste para a tua ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam: não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego: o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.—Assim passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me, vivia de esperanças… triste viver mas doce! Emfim vieste para Lisboa, para aqui… e as tuas cartas que não eram menos ternas nem menos apaixonadas…'

—'Se eu nunca deixei, nem um momento…'

Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com um arrebatamento, uma furia, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços, que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros, celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.