Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel, pois o pinhal da Azambuja é isto?… Eu que os trazia promptos e recortados para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de Schiller, e os elegantes facinorosos do Auberge-des-Adrets, eu heide perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto—não ter onde os pôr!..
Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Tracta-se de um romance, de um drama—cuidas que vamos estudar a historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do vivo da natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia… isso é trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sôbretudo um tacto!… Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas,
Um pae,
Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
Um criado velho,
Um monstro, incarregado de fazer as maldades,
Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.